SIMBOLISMO

Luta contra as injustiças sociais

       Cruz e Sousa praticou essencialmente um jornalismo cultural que era também crítico. Depois de "O Colombo", publica regularmente na "Tribuna Popular". "Como este jornal desapareceu da Biblioteca Pública, pode-se ainda estudar Cruz e Sousa como jornalista na coleção do semanário 'O Moleque', que ele dirigiu por seis meses", acrescenta Zahidé, lembrando que o poeta "não tinha medo das palavras e usava-as com vigor contra as injustiças sociais".

     "O Moleque", publicado durante um ano (1884 a 85), era um períodico de formato pequeno, ilustrado litograficamente. Com humor, sátiras e caricaturas, criticava os costume e a política. Com passagem em inúmeros outros jornais da crítica brasileira, R. Magalhães Júnior, seu biógrafo mais apurado, destaca os pseudônimos do poeta na imprensa brasileira: Felisberto, Filósofo Alegre, Coriolano Scévola, Habitué, Zé K. e Trac.

    Iaponan lembra outros, Heráclito, Zat e Zot e afirma que na imprensa catarinense, Cruz usou ainda outros pseudônimos. Em "O Moleque", Zat, Zot, Zut. Com relação ao pseudônimo Zé K., Magalhães Júnior vai mais longe e revela o anagrama do Z de Cruz e da conjunção que o liga a Sousa, sendo K a transposição para essa consoante do som de C + A, isto é, da primeira e da última letra de seu nome literário.

Cruz e Sousa já era moderno, antes de ser eterno. (JL)

1861
Nascimento do poeta em 24 de novembro, Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis. Filho do escravo mestre-pedreiro Guilherme e da escrava liberta, Carolina Eva da Conceição, negros puros.

1869
Ingresso na escola pública, depois de receber as primeiras letras de dona Clarinda Fagundes de Souza, mulher do marechal Ghilherme Xavier de Sousa, em cuja casa o poeta foi criado.

1871
Matrícula no Ateneu Providencial Catarinense, onde lecionava o alemão Fritz Müller. Cruz e Sousa estudou com distinção grego, latim, inglês, francês, português, matemática e ciências naturais.

1881
Fundação, com Virgílio Várzea e Santos Lostada, do jornal literário "Colombo". Viagem ao Rio Grande do Sul, de navio, acompanhado a Companhia Dramática Julieta dos Santos, como ponto teatral.

1884
Nova viagem ao Norte do país. Aclamações abolicionista ao poeta na Bahia. Em 1885 publica o livro de poemas em prosa "Tropos e Fantasias" em parceria com Virgílio Várzea. Dirige o jornal "O Moleque".

1888
No Rio, entra em contato com Luís Delfino, B. Lopes e Nestor Vítor. Este tornar-se mais tarde grande amigo, admirador e editor do poeta. Leituras de Edgar Allan Poe e de alguns simbolistas europeus.

1888
Abolição da escravatura. Durante estada no Rio, apresenta a José do Patrocínio um livro de versos chamado "Cambiantes", que não chegou a ser publicado. O livro continha poemas abolicionistas.

1890
Muda-se definitivamente para a capital federal, onde trabalha como noticiarista da revista "A Cidade do Rio de Janeiro". Leitura de Mallarmé. Colabora na "Revista Ilustrada" e no jornal "Novidades".

           

 O Simbolismo representou, na Europa, a estética literária final do século XIX, que se opôs às propostas do Realismo.
            Etimologicamente, a palavra símbolo, de origem grega, significa “colocar junto”, associar uma coisa com outra.
            O uso de símbolos sempre existiu na vida e na arte de todos os povos e de todos os lugares. A psicanálise considera os símbolos, principalmente os oníricos, como um mecanismo automático de defesa do homem, cujo conhecimento é indispensável para desvendar o inconsciente (Freud) ou coletivo (Jung).
            Por ser a expressão sensível de um objeto ou de um ser invisível, o símbolo sempre foi muito utilizado em religião e na magia.
            Na literatura, a poesia sempre foi essencialmente simbólica, pelo uso de metáforas, imagens e analogias, que exprimem de modo figurativo as idéias e os sentimentos dos poetas.
Num sentido restrito, o Simbolismo, como movimento literário e estético, surgiu na França e vigorou nas duas últimas décadas do século XIX, na fase da “belle époque”.
            Essas duas últimas décadas do século XIX deram a perceber, em boa parte dos autores realistas, uma postura de desilusão, de frustração, em conseqüência das malogradas tentativas de transformar a sociedade burguesa industrial. Portugal ofereceu vários e significativos exemplos. O mais patente foi o de Antero de Quental que, em meio a profundas crises existenciais, terminou suicidando-se.
            Um grupo de intelectuais, chamados de “poetas decadentes”, apresentou uma nova proposta estética, fundamentada em valores espirituais e formada nesse clima de saturadas indisposições e abatidos desalentos.
Inicialmente denominado de Decadentismo, esse novo movimento estético teve o seu nome mudado para Simbolismo, graças a um artigo publicado em 1886 por Jean Moréas, o teórico do grupo, que afirmava que a nota essencial da nova escola estava baseada não tanto em seu tom decadente, mas em seu caráter simbólico. Moréas também afirmou que o objetivo da nova arte era “objetivar o subjetivo em vez de subjetivar o objetivo”, e que a fórmula essencial da estética simbolista era “vestir a idéia com uma forma sensível.”
            O precursor ideológico do movimento simbolista foi o sueco F. Swedenborg (1688 a 1772), que se notabilizou por seus escritos teosóficos e místicos. No campo literário, os precursores do Simbolismo foram Hoffmann, Poe e Baudelaire, cujo poema Correspondances, que apresentamos a tradução na abertura dessa página, foi tomado pelos simbolistas como o poema-manifesto da nova estética.
            Além de Baudelaire, os principais poetas franceses, que influenciaram os movimentos simbolistas brasileiro e português, foram Stéphane Mallarmé, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Paul Valéry. Baudelaire, por sinal, influenciou e ainda influencia todo movimento poético e a maioria dos poetas que o sucederam.
            Em Portugal, o movimento simbolista foi iniciado por Eugênio de Castro, com a publicação da coletânea de poemas Oaristos, em 1890. A geração de 70 evoluíra, à altura dos Vencidos da Vida, para uma visão menos cientificista da realidade, atenuando os ímpetos revolucionários e o reencontro com algumas verdades morais e espirituais negadas até àquele momento.

Contexto Histórico

            As correntes materialistas e racionalistas da segunda metade do século XIX, não mais correspondiam às exigências de uma nova realidade, desde que o processo burguês industrial evoluía a passos largos, gerando a luta das grandes potências pelos mercados consumidores e fornecedores de matéria-prima.
            Em relação a Portugal, este ainda padecia com a monarquia em crise e com o ultimato do governo inglês para que desocupasse os territórios sob seu domínio, situados entre Angola e Moçambique.

 

Características

            “Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema, que consiste em ir adivinhando pouco a pouco: sugerir, eis o sonho. É a perfeita utilização desse mistério que constitui o símbolo: evocar pouco a pouco para mostrar um estado de alma, ou inversamente, escolher um objeto e extrair dele um estado de alma, através de uma série de adivinhas.”

(Stéphane Mallarmé)

            O Simbolismo apresentou uma contraposição radical ao materialismo, ao engajamento social e às circunstâncias imediatas do cotidiano, cultivando o individualismo e o isolamento, radicalizando essa experiência a ponto de criarem uma imaginária “torre de marfim”, em que poderiam dedicar-se exclusivamente à criação literária. Podemos afirmar que o movimento simbolista foi, antes de tudo, antipositivista, antinaturalista e anticientificista.
            O advento do Simbolismo teve como conseqüência imediata o retorno da subjetividade, como que efetuando uma volta aos ideais românticos, embora com manifestações poéticas nascidas numa camada mais profunda. O Simbolismo recuperou sentimentos e emoções do ser humano, como o amor, paixão, tristeza, desejo de morte. Mas o Simbolismo também buscou outro tipo de explicação para os grandes mistérios que a ciência não tinha conseguido resolver.
            A prática do individualismo conduzia às camadas mais inaccessíveis do eu, numa busca que poderia terminar no sonho ou na loucura.
            A poesia voltou a abrigar a espiritualidade, manifestando-a de forma mística, voltada para mistérios que o ser humano não pode desvendar, ou religiosa, apoiando-se numa crença e numa fé.
            Enquanto a linguagem, para os parnasianos, era um fim em si mesma, para os simbolistas, ela era carregada de símbolos. Eles poderiam ser evocados pelas figuras de linguagem, muitas vezes associadas aos sentidos, principalmente as metáforas e as sinestesias.
            O emprego da linguagem figurada possibilita diversas interpretações dos poemas, correspondentes a diversas camadas de aprofundamento. Pode recair no hermetismo, que foi uma das características desse movimento.
            Pode-se perceber na poesia simbolista, também, o pessimismo e o decadentismo. Se o pessimismo, para os realistas, levava ao desejo de lutar pela superação das desigualdades sociais, para a concepção simbolista, compreendia a decadência ou degradação como algo inerente ao ser humano.

 

            As incursões poéticas publicadas nas revistas Os Insubmissos e Boêmia Nova, assim como outros poetas em algumas de suas obras, como Gomes Leal, Antonio Feijó, Cesário Verde, Antero e outros, propiciaram a instalação do Simbolismo em Portugal por Eugênio de Castro.
            Oaristos compunha-se de quinze poemas, entre longos e curtos, antecedidos de um prefácio-programa da nova tendência. Este prefácio constituiu a plataforma doutrinária do Simbolismo português.
            O autor atentou mais para os recursos formais do que para a essência poética. Essa redução dos problemas estéticos relacionados com o Simbolismo se devia a uma vocação neoclássica, que se mesclava e confundia com o influxo simbolista.
            Por outro lado, sob a égide de simbolistas, desfilavam poetas de várias tendências, algumas diametralmente contraditórias, dando-nos a idéia de que o Simbolismo não constituiu um movimento nem uniforme nem estático, surgindo como um movimento vário e múltiplo em qualquer estágio de sua evolução.
            Devido a isso, os poetas portugueses receberam o nome de nefelibatas, isto é, de pessoas que andavam nas nuvens. O nefelibatismo se tornou como uma espécie de adaptação portuguesa do Decadentismo e do Simbolismo francês.
Somente com Camilo Pessanha é que o Simbolismo se desligou das aderências realistas e das formas retardatárias do Romantismo sentimental.

A POESIA DE CRUZ E SOUSA
 

AMOR

Nas largas mutações perpétuas do universo
O amor é sempre o vinho enérgico, irritante...
Um lago de luar nervoso e palpitante...
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.

Não há para o amor ridículos preâmbulos,
Nem mesmo as convenções as mais superiores;
E vamos pela vida assim como os noctâmbulos
à fresca exalação salúbrica das flores...

E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor -- na heroicidade,
Com essa intrepidez dos sábios transformistas.

Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!...
 

Acrobata da dor

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

(De "Broquéis")

 

O Assinalado

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco...

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

(De "Últimos Sonetos")

 

Grande Amor

Grande amor, grande amor, grande mistério
Que as nossas almas trêmulas enlaça...
Céu que nos beija, céu que nos abraça
Num abismo de luz profundo e sério.

Eterno espasmo de um desejo etéreo
E bálsamo dos bálsamos da graça,
Chama secreta que nas almas passa
E deixa nelas um clarão sidéreo.

Cântico de anjos e de arcanjos vagos
Junto às águas sonâmbulas de lagos,
Sob as claras estrelas desprendido...

Selo perpétuo, puro peregrino
Que prende as almas num igual destino,
Num beijo fecundado num gemido.

(De "Últimos Sonetos")

 

Antífona

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádicas frescuras
E dolências de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos,
Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios...

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte...

(De "Broquéis")

 

Boca

III

Boca viçosa, de perfume a lírio,
Da límpida frescura da nevada,
Boca de pompa grega, purpureada,
Da majestade de um damasco assírio.

Boca para deleites e delírio
Da volúpia carnal e alucinada,
Boca de Arcanjo, tentadora e arqueada,
Tentando Arranjos na amplidão do Empírio.

Boca de Ofélia morta sobre o lago,
Dentre a auréola de luz do sonho vago
E os faunos leves do luar inquietos...

Estranha boca virginal, cheirosa,
Boca de mirra e incensos, milagrosa
Nos filtros e nos tóxicos secretos...

(De "Faróis")

Considerações

Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo...

Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo...

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta...

E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta...

Bibliografia:

BASTIDE, Roger. “Quatro Estudos sobre Cruz e Sousa”. Fortuna Crítica. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979.

LEMINSKI, Paulo. “Cruz e Sousa – o Negro Branco”. Vida. Porto Alegre, Sulina, 1990.

MAGALHÃES JR., Raimundo de. Poesia e vida de Cruz e Sousa. São Paulo, Edit. Das Américas, 1961.

MURICI, Andrade. “Atualidade de Cruz e Sousa”. Introdução à Obra Completa de Cruz e Sousa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995.

MUZART, Zahidé Lupinacci. “Cruz e Sousa e a crítica”. Revista Cult n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998.

RUFINONI, Simone Rossinetti. “O Satã Negro”. Revista Cult n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998.

TEIXEIRA, Ivan. “Metafísica e exílio”. Revista Cult n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998.