SIMBOLISMO
|
Luta contra as injustiças sociais Cruz e Sousa praticou essencialmente um jornalismo cultural que era também crítico. Depois de "O Colombo", publica regularmente na "Tribuna Popular". "Como este jornal desapareceu da Biblioteca Pública, pode-se ainda estudar Cruz e Sousa como jornalista na coleção do semanário 'O Moleque', que ele dirigiu por seis meses", acrescenta Zahidé, lembrando que o poeta "não tinha medo das palavras e usava-as com vigor contra as injustiças sociais". "O Moleque", publicado durante um ano (1884 a 85), era um períodico de formato pequeno, ilustrado litograficamente. Com humor, sátiras e caricaturas, criticava os costume e a política. Com passagem em inúmeros outros jornais da crítica brasileira, R. Magalhães Júnior, seu biógrafo mais apurado, destaca os pseudônimos do poeta na imprensa brasileira: Felisberto, Filósofo Alegre, Coriolano Scévola, Habitué, Zé K. e Trac. Iaponan lembra outros, Heráclito, Zat e Zot e afirma que na imprensa catarinense, Cruz usou ainda outros pseudônimos. Em "O Moleque", Zat, Zot, Zut. Com relação ao pseudônimo Zé K., Magalhães Júnior vai mais longe e revela o anagrama do Z de Cruz e da conjunção que o liga a Sousa, sendo K a transposição para essa consoante do som de C + A, isto é, da primeira e da última letra de seu nome literário. Cruz e Sousa já era moderno, antes de ser eterno. (JL) |
||||||
|
||||||
O Simbolismo representou, na Europa, a
estética literária final do século XIX, que se opôs às propostas do
Realismo.
Etimologicamente, a palavra símbolo, de origem grega,
significa “colocar junto”, associar uma coisa com outra.
O uso de símbolos sempre existiu na vida e na arte de todos os
povos e de todos os lugares. A psicanálise considera os símbolos,
principalmente os oníricos, como um mecanismo automático de defesa do homem,
cujo conhecimento é indispensável para desvendar o inconsciente (Freud) ou
coletivo (Jung).
Por ser a expressão sensível de um objeto ou de um ser
invisível, o símbolo sempre foi muito utilizado em religião e na magia.
Na literatura, a poesia sempre foi essencialmente simbólica,
pelo uso de metáforas, imagens e analogias, que exprimem de modo figurativo
as idéias e os sentimentos dos poetas.
Num sentido restrito, o Simbolismo, como movimento literário e estético,
surgiu na França e vigorou nas duas últimas décadas do século XIX, na fase
da “belle époque”.
Essas duas últimas décadas do século XIX deram a perceber, em
boa parte dos autores realistas, uma postura de desilusão, de frustração, em
conseqüência das malogradas tentativas de transformar a sociedade burguesa
industrial. Portugal ofereceu vários e significativos exemplos. O mais
patente foi o de Antero de Quental que, em meio a profundas crises
existenciais, terminou suicidando-se.
Um grupo de intelectuais, chamados de “poetas decadentes”,
apresentou uma nova proposta estética, fundamentada em valores espirituais e
formada nesse clima de saturadas indisposições e abatidos desalentos.
Inicialmente denominado de Decadentismo, esse novo movimento estético
teve o seu nome mudado para Simbolismo, graças a um artigo publicado em 1886
por Jean Moréas, o teórico do grupo, que afirmava que a nota
essencial da nova escola estava baseada não tanto em seu tom decadente, mas
em seu caráter simbólico. Moréas também afirmou que o objetivo da nova arte
era “objetivar o subjetivo em vez de subjetivar o objetivo”, e que a fórmula
essencial da estética simbolista era “vestir a idéia com uma forma
sensível.”
O precursor ideológico do movimento simbolista foi o sueco F.
Swedenborg (1688 a 1772), que se notabilizou por seus escritos teosóficos e
místicos. No campo literário, os precursores do Simbolismo foram Hoffmann,
Poe e Baudelaire, cujo poema Correspondances, que apresentamos a
tradução na abertura dessa página, foi tomado pelos simbolistas como o
poema-manifesto da nova estética.
Além de Baudelaire, os principais poetas franceses, que
influenciaram os movimentos simbolistas brasileiro e português, foram
Stéphane Mallarmé, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Paul Valéry.
Baudelaire, por sinal, influenciou e ainda influencia todo movimento
poético e a maioria dos poetas que o sucederam.
Em Portugal, o movimento simbolista foi iniciado por Eugênio de
Castro, com a publicação da coletânea de poemas Oaristos, em 1890. A
geração de 70 evoluíra, à altura dos Vencidos da Vida, para uma visão
menos cientificista da realidade, atenuando os ímpetos revolucionários e o
reencontro com algumas verdades morais e espirituais negadas até àquele
momento.
Contexto Histórico
As correntes materialistas e
racionalistas da segunda metade do século XIX, não mais correspondiam às
exigências de uma nova realidade, desde que o processo burguês industrial
evoluía a passos largos, gerando a luta das grandes potências pelos mercados
consumidores e fornecedores de matéria-prima.
Em relação a Portugal, este ainda padecia com a monarquia em
crise e com o ultimato do governo inglês para que desocupasse os territórios
sob seu domínio, situados entre Angola e Moçambique.
Características
“Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema, que consiste em ir adivinhando pouco a pouco: sugerir, eis o sonho. É a perfeita utilização desse mistério que constitui o símbolo: evocar pouco a pouco para mostrar um estado de alma, ou inversamente, escolher um objeto e extrair dele um estado de alma, através de uma série de adivinhas.”
(Stéphane Mallarmé)
O Simbolismo apresentou uma
contraposição radical ao materialismo, ao engajamento social e às
circunstâncias imediatas do cotidiano, cultivando o individualismo e o
isolamento, radicalizando essa experiência a ponto de criarem uma imaginária
“torre de marfim”, em que poderiam dedicar-se exclusivamente à
criação literária. Podemos afirmar que o movimento simbolista foi, antes de
tudo, antipositivista, antinaturalista e anticientificista.
O advento do Simbolismo teve como conseqüência imediata o
retorno da subjetividade, como que efetuando uma volta aos ideais
românticos, embora com manifestações poéticas nascidas numa camada mais
profunda. O Simbolismo recuperou sentimentos e emoções do ser humano, como o
amor, paixão, tristeza, desejo de morte. Mas o Simbolismo também buscou
outro tipo de explicação para os grandes mistérios que a ciência não tinha
conseguido resolver.
A prática do individualismo conduzia às camadas mais
inaccessíveis do eu, numa busca que poderia terminar no sonho ou na
loucura.
A poesia voltou a abrigar a espiritualidade, manifestando-a de
forma mística, voltada para mistérios que o ser humano não pode desvendar,
ou religiosa, apoiando-se numa crença e numa fé.
Enquanto a linguagem, para os parnasianos, era um fim em si
mesma, para os simbolistas, ela era carregada de símbolos. Eles poderiam ser
evocados pelas figuras de linguagem, muitas vezes associadas aos sentidos,
principalmente as metáforas e as sinestesias.
O emprego da linguagem figurada possibilita diversas
interpretações dos poemas, correspondentes a diversas camadas de
aprofundamento. Pode recair no hermetismo, que foi uma das características
desse movimento.
Pode-se perceber na poesia simbolista, também, o pessimismo e o
decadentismo. Se o pessimismo, para os realistas, levava ao desejo de lutar
pela superação das desigualdades sociais, para a concepção simbolista,
compreendia a decadência ou degradação como algo inerente ao ser humano.
As incursões poéticas
publicadas nas revistas Os Insubmissos e Boêmia Nova, assim
como outros poetas em algumas de suas obras, como Gomes Leal, Antonio Feijó,
Cesário Verde, Antero e outros, propiciaram a instalação do Simbolismo em
Portugal por Eugênio de Castro.
Oaristos compunha-se de quinze poemas, entre longos e
curtos, antecedidos de um prefácio-programa da nova tendência. Este prefácio
constituiu a plataforma doutrinária do Simbolismo português.
O autor atentou mais para os recursos formais do que para a
essência poética. Essa redução dos problemas estéticos relacionados com o
Simbolismo se devia a uma vocação neoclássica, que se mesclava e confundia
com o influxo simbolista.
Por outro lado, sob a égide de simbolistas, desfilavam poetas de
várias tendências, algumas diametralmente contraditórias, dando-nos a idéia
de que o Simbolismo não constituiu um movimento nem uniforme nem estático,
surgindo como um movimento vário e múltiplo em qualquer estágio de sua
evolução.
Devido a isso, os poetas portugueses receberam o nome de
nefelibatas, isto é, de pessoas que andavam nas nuvens. O nefelibatismo
se tornou como uma espécie de adaptação portuguesa do Decadentismo e do
Simbolismo francês.
Somente com Camilo Pessanha é que o Simbolismo se desligou das aderências
realistas e das formas retardatárias do Romantismo sentimental.
A POESIA DE CRUZ E
SOUSA
AMOR
Nas largas mutações perpétuas do universo
O amor é sempre o vinho enérgico, irritante...
Um lago de luar nervoso e palpitante...
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.
Não há para o amor ridículos preâmbulos,
Nem mesmo as convenções as mais superiores;
E vamos pela vida assim como os noctâmbulos
à fresca exalação salúbrica das flores...
E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor -- na heroicidade,
Com essa intrepidez dos sábios transformistas.
Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!...
Acrobata da dor
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.
Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...
Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...
E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.
(De "Broquéis")
O Assinalado
Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco...
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
(De "Últimos Sonetos")
Grande Amor
Grande amor, grande amor, grande mistério
Que as nossas almas trêmulas enlaça...
Céu que nos beija, céu que nos abraça
Num abismo de luz profundo e sério.
Eterno espasmo de um desejo etéreo
E bálsamo dos bálsamos da graça,
Chama secreta que nas almas passa
E deixa nelas um clarão sidéreo.
Cântico de anjos e de arcanjos vagos
Junto às águas sonâmbulas de lagos,
Sob as claras estrelas desprendido...
Selo perpétuo, puro peregrino
Que prende as almas num igual destino,
Num beijo fecundado num gemido.
(De "Últimos Sonetos")
Antífona
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...
Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádicas frescuras
E dolências de lírios e de rosas...
Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...
Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...
Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos,
Com a chama ideal de todos os mistérios.
Do sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do verso, pelos versos cantem.
Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.
Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas...
Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos...
Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios...
Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte...
(De "Broquéis")
Boca
III
Boca viçosa, de perfume a lírio,
Da límpida frescura da nevada,
Boca de pompa grega, purpureada,
Da majestade de um damasco assírio.
Boca para deleites e delírio
Da volúpia carnal e alucinada,
Boca de Arcanjo, tentadora e arqueada,
Tentando Arranjos na amplidão do Empírio.
Boca de Ofélia morta sobre o lago,
Dentre a auréola de luz do sonho vago
E os faunos leves do luar inquietos...
Estranha boca virginal, cheirosa,
Boca de mirra e incensos, milagrosa
Nos filtros e nos tóxicos secretos...
(De "Faróis")
Considerações
Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo...
Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo...
Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta...
E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta...
|
Bibliografia:
BASTIDE, Roger. “Quatro Estudos sobre Cruz e Sousa”.
Fortuna Crítica.
Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979.
LEMINSKI, Paulo. “Cruz e Sousa – o Negro Branco”.
Vida.
Porto Alegre, Sulina, 1990.
MAGALHÃES JR., Raimundo de.
Poesia e vida de Cruz e Sousa.
São Paulo, Edit. Das Américas, 1961.
MURICI, Andrade. “Atualidade de Cruz e Sousa”. Introdução à
Obra
Completa
de Cruz e Sousa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995.
MUZART, Zahidé Lupinacci.
“Cruz e Sousa e a crítica”. Revista
Cult
n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998.
RUFINONI, Simone Rossinetti.
“O Satã Negro”. Revista
Cult
n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998.
TEIXEIRA, Ivan. “Metafísica e exílio”. Revista
Cult
n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998.
|