QUEM TEM FARELOS?

Este nome da Farsa seguinte - Quem tem farelos? - pôs-lhe o vulgo. É o seu argumento, que um escudeiro mancebo per nome Aires Rosado tangia viola, e a esta causa, ainda que sua moradia era muito fraca, continuamente era namorado. Trata-se aqui de uns amores seus. Foi representa da na mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa ao muito excelente e nobre Rei D. Manuel primeiro deste nome, nos Paços da Ribeira, era do Senhor de 1505.

 

FIGURAS: Aires Rosado, escudeiro; Apariço, Ordonho, criados; Izabel, dama e a Velha, mãe de Izabel.

Vem Apariço e Ordonho, moços de esporas, a buscar farelos, e diz logo:

 APARIÇO    Quem tem farelos? (quem tem farelos?)

 ORDONHO  Quien tiene farelos? (quem tem farelos?)

 APARIÇO    Ordonho, Ordonho, espera mi. (Ordonho! Espera por mim.)

      Ó fideputa ruim! (seu filho da puta!)

      - Sapatos tens amarelos, (estás tão bem)

      já não falas a ninguém. (que já não falas com ninguém.)

 

ORDONHO Como te va, compañero? (como você vai, companheiro?)

 APARIÇO  S'eu moro c'um escudeiro, (se eu moro junto com um escudeiro)

      como e pode a mi ir bem? (como posso ir bem?)

 

ORDONHO  Quien es tu amo? di, hermano? (Quem é teu amo, quem é a pessoa que você serve, me diga, meu irmão?)

 APARIÇO    É o demo que me tome: (é o diabo que vive comigo) morremos ambos de fome (morremos de fome) e de lazeira todo ano (e de miséria o ano inteiro)

 ORDONHO  Con quien vive? (para quem ele serve?)

 APARIÇO    Que sei eu? (eu não sei) Vive assi per hi pelado, (só sei que vive por aí na miséria) como podengo escaldado. (como um cão vadio, sem dono)

 ORDONHO  De qué sirve? (de que se ocupa?)

 APARIÇO    De sandeu. (de maluquices, loucuras) Pentear e jejuar, (vive pra ficar jejuando e cuidando de seu cabelo)todo dia sem comer, (consegue passar um dia inteiro sem comer) cantar e sempre tanger, (cantando e sempre a tocar)    

suspirar e bocejar: (suspiram me bocejando)

sempre anda falando só, (e falando sozinho pelos cantos) faz umas trovas tão frias, (faz canções horríveis)           tão sem graça, tão vazias, (sem ânimo, sem sentido)                                                 

que é cousa para haver dó!

(chega dá pra ficar com pena)

E presume d'embicado; (e supõe ser esperto) que com isto raivo eu. (isto me dá raiva)

Três anos há que sou seu, (faz três anos que sou seu servo)

e nunca lhe vi cruzado: (e nunca o vi pagar as contas)

mas segundo nós gastamos, (mas, pelo que gostamos)

um tostão nos dura um mês. (cem reais dura um mês)

 

ORDONHO  Cuerpo de San! qué comeis? (Corpo santo! que comeis?)

 APARIÇO    Nem de pão nós nos fartamos.

 ORDONHO  Y el caballo? (e o cavalo?)

 APARIÇO    Está na pele (está seco, tão magro)

que lhe fura já a ossada: (que os ossos furam a pele)

não comemos quase nada (quase não comemos nada)

eu e o cavalo, nem ele. (nem eu, nem o cavalo nem ele)

E se o visses brasonar, (e se o visses vangloriar-se, contar vantagens)

e fingir mais d'esforçado; (e se considerando valente)

e todo dia aturado (e o dia inteiro)

se lhe vai em se gabar. (fica se vangloriando)

Estouro dia, ali num beco, (mas um dia, num beco)

deram-lhe tantas pancadas, (deram uma surra nele)

tantas, tantas, que aosadas!... (tantas, tantas, que lhe quebraram os ossos!...)

 ORDONHO  Y con qué? (com o que bateram nele?)

 APARIÇO    Cum arrocho seco. (Arrocho = pedaço de pau torto e curto)

 ORDONHO  Hi hi hi hi hi hi hi (risos sádicos)

 APARIÇO    Folguei tanto! (eu me diverti muito)

 ORDONHO  Y el callar? (e ele apanhou calado?)

 APARIÇO    E ele calar e levar, (e ele apanhou calado,)

                  assi, assi, ma ora, assi! (e continuou apanhando!)

Vem alta noite de andar, (ele andar durante a noite;

regressa tarde da noite)

de dia sempre encerrado: (e passa o dia todo trancado)

porque anda mal roupado, (porque anda mal vestido; suas roupas são velhas)

não ousa de se mostrar. (e ele não tem coragem de mostrá-los)

Vem tão ledo - sus, cear! (vem tão feliz/alegre - bem alimentado!)

Como se tivesse quê; (como se tivesse posses; como se tivesse o que comer)

e eu não tenho que lhe dar, (ele não tem nada para me oferecer)

nem ele tem que lh'eu dê. (e eu não tenho nada para dar a ele)

Toma um pedaço de pão, (pega um pedaço de pão)

e um rábam engelhado, (rábam = raiz comestível; e um rabanete murcho)

e chanta nele bocado, (e crava nele a boca/os dentes)

coma cão. (como um cão)

Não sei como se mantém, (não sei como consegue se manter)

que não está debilitado. (que não está debilitado)

 

ORDONHO  Bástale ser namorado, (basta de estar apaixonado)

en demás se le vá bien! (e o resto lhe vai bem!)

 

APARIÇO    Comendo ó demo a mulher! (a mulher, que dá de comer ao demônio!)

Nem casada, nem solteira,

nenhuma negra tripeira (nem as que estão acabadas de tanto trabalhar)

não no quer. (querem ele)

 

ORDONHO  Será escudero peco, (será escudeiro burro)

ó desdichado? (ou desgraçado?)

 

APARIÇO    Mas, a poder de pelado, (mas, por ser pobre)

dá em seco! (nada consegue!)

Todas querem que lhe dem, (todas elas querem alguma coisa)

e não curam de cantar: (e não gostam de quem canta, de cantorias)

sabe que quem tem que dar (quando sabem que vão ganhar)

lhe vai bem. (que ficam alegres, contentes)

Querem mais um bom presente

que tanger, (que canções, músicas)

nem trovar nem escrever (não querem trovas nem poesias)

discretamente. (nem homens discretos, educados)

 

ORDONHO  Y pués porque está con él? (e por que você está com ele?)

 

APARIÇO    Diz qu m'há-de dar a el-Rei, (diz que vai me tornar servo do rei)

e tanto farei farei -  (mas promete, promete e não cumpre)

 

ORDONHO  Déjalo, reniega dél; (deixa-o, abandona-o)

y tal amo has de tener? (vais continuar tendo um amo assim?)

 

APARIÇO    Bofá, não sei qual me tome; (Palavra, não sei o que fazer!)

sou já tão farto de fome, (talvez porque esteja tão faminto)

coma outros de comer. (quanto você deve estar farto, de barriga cheia)

 

ORDONHO  Poca gente desta es franca. (Pouca gente é honesta aqui nesta terra)

Pues el mio es repeor; (pois o meu é o pior)

                  sueñase muy gran señor, (sonha que é um grande senhor)

y no tiene media blanca. (e não tem meio tostão)

Júrote á Dios que es un cesto, (juro por Deus que é um ignorante/rude)

un badajo contrahecho, (um falador que nos constrange)

galan muho mal dispuesto, (não tem nenhum jeito de galã)

sin descanso y sin provecho. (sem descanso e sem proveito)

Habla en roncas, picas, dalles, (fala em alabardas, lanças e foices)

en guerras y desbaratos; (em guerras e confusões [espalhar as pessoas amontoadas])

y se pelean ali dos gatos, (e se brigam ali dois gatos)

ahuirá montes y valles! (demolirá montes e vales; fugirá por montes e vales)

Nunca viste al buharro. (nunca verás tal fanfarrão/contador de vantagens)

Cuenta de los Anibales, (conta dos Anibales)

Cepiones, Roçasvalles, (de Cipião e de lugares de grandes batalhas, como Roncesvale)

y no matará un jarro. (mas não faz nada [jarro = pessoa escandalosa])

Apuesto-te que un judio (aposto com você que um judeu)

con una beca lo mate. (vestindo uma capa o mate)

Quando allende fué el rebate, (além do mais quando houve o combate)

nunca él entró en navio. (não embarcou em nenhum navio)

Y quando está en la posada, (e quando está na pousada/em casa)

quiere destruir la tierra. (quer destruir a terra)

Siempre sospira por guerra, (sempre deseja a guerra)

y todo su hecho es nada. (e não toma nenhuma atitude para ir a uma)

Y presume allá em palacio (e pensa que etá em um palácio)

de andar con damas el triste. (andando com damas, o triste)

Quando se viste, (quado se veste)

toma dos horas despacio! (leva duas horas para vestir-se!)

Y quanto el cuytado lleva, (e tudo o quanto o coitado leva,)

todo lo lleva alquilado, (tudo o que leva é alugado,)

y como se fuese comprado, (e como se fosse comprado; usa como se fosse seu)

ansí se enleva. (com isso assim se empolga; e ainda fica vaidoso)

Y tambien apaña palos (e também apanha surras)

como qualquier pecador; (como qualquer pecador)

y sobre ser el peor, (e embora não seja boa coisa; e embora não seja melhor que os outros)

burla de buenos y malos. (zomba de bons e de maus; ainda fala mal dos outros)

 

APARIÇO    Pardeus, ruins amos temos! (Céus! temos amos muito ruins!)

Tem o teu mula ou cavalo? (o teu amo tem mula ou cavalo?)

 

ORDONHO  Mula seca como un palo; (tem uma mula seca como um pau!)

alquila-la, y dahi comemos. (aluga-a, e daí comemos; só comemos quando a alugamos)

Mas mi amo tiene un bien - (mas meu amo tem uma vantagem -)

que, aunque le queran hurtar, (que, ainda que lhe queiram furtar; se alguém quiser furtá-lo)

no ha hi de que sisar, (não há como roubá-lo)

ni el triste no lo tien! (nem o triste tem o que ser roubado; porque ele não tem nada seu)

 

APARIÇO    É músico? (ele é cantor?)

 

ORDONHO  Muy de gana. (ele pensa ser; é... e com muita vontade)

Quando hace alguna mueca, (quando faz caretas)

canta como pata chaeca, (canta como uma pata choca)

otras veces como rana. (outras vezes como uma rã)

 

APARIÇO    Meu amo tange viola: (meu amo toca sua viola)

                  uma voz tão requebrada... (uma voz tão desafinada...)

 

ORDONHO  Quiérome ir á la posada. (quero ir para casa)

 

APARIÇO    E os farelos?

 

ORDONHO  Paja sola. (a mula comerá somente palha; só tem palha)

 

APARIÇO    Mas vem comigo e verás (mas venha comigo e você verá)

meu amo como é pelado, (como meu amo é pobre; não tem nada)

tão doce, tão namorado, (mas é tão meigo, tão apaixonado,)

                  tão doudo, que pasmarás. (tão doido que você ficará pasmo)

 

ORDONHO  Como ha nombre tu señor? (como o teu senhor se chama?)

 

APARIÇO    Chama-se Aires Rosado,

eu chamo-lhe asno pelado,

quando me faz mais lavor. (quando me obriga a trabalhar mais)

 

ORDONHO  Aires Rosado se llama? (Aires Rosado se chama?)

 

APARIÇO    Neste seu livro o lerás: (veja esse livro dele)

escuta tu e verás (ouça e você verá; leia e sinta ele cantando)

as trovas que fez à Dama. (as canções que fez para uma mulher)

 

Anda Aires Rosado só, passeando pola casa lendo no seu cancioneiro desta maneira:

 

Cantiga d'Aires Rosado (cantiga de Aires Rosado)

a sua Dama, (para sua dama,)

e não diz como se chama, (e não diz qual é o nome dela,)

de discreto namorado. (porque é educado.)

 

Senhora, pois me lembrais, (Senhora, pois recordais de mim; Senhoras, lembre-se de mim)

não sejais desconhecida, (não sejais ingrata; não se esqueça de mim)

e daí ó demo esta vida (e ofereça ao demo esta condição)

que me dais.  (que você me deu)

ou m'irei ali entorcar, (ou eu irei me enforcar ali)

e vereis mau pesar de quem, (e você verá um momento ruim)

por vos querer grande bem, (de quem te quer bem)

se foi matar. (de quem deixou a vida por ti.)

 

Então lá no outro mundo

veremos que conta dais

da triste da minha vida

que matais.

 

Outra sua.

 

Pois amor me quer matar (pois o amor quer me matar)

com dor, tristura e cuidado, (com sofrimento, tristeza e carinho)

eu me conto por finado, (acredito que estou morto)

e quero-me soterrar. (e quero me enterrar)

Fui tomar uma pendença (apaixonei-me)

com uma cruel senhora, (por uma ingrata senhora)

e agora

acho que foi pestelença. (acho que foi a peste)

Chore quem quiser chorar;

saibam já que sou finado

sem finar,

e quero ser soterrado. (e quero ser enterrado)

 

Outra sua, estando mal com sua Dama.

 

Senhora mana Isabel, (senhora, querida Isabel)

minha paixão e fadiga (minha paixão e meu cansaço)

mando lá esse papel (mando esse recado)

que vo-la diga. (para dizer a você)

Volta.

Se quiser dizer verdade, (se quiser saber a verdade)

dir-vos-á tantas paixões, (a paixão que tenho por você é tão grande)

que em sete corações,

não caberão ametade. (não cabem nem a metade!)

Estou co'a candeia na mão, (estou morrendo)

senhora minha, Isabel,

mando lá esse papel, (mando para você esse recado)

que vos diga esta paixão. (que revele minha paixão por você)

 

Fala Aires Rosado com seu moço:

 

AIRES        Como tardaste, Apariço! (você demorou muito, Apariço!)

 

APARIÇO    E tanto tardei or'eu? (e eu demorei tanto?)

 

AIRES        Apariço, bem sei eu (Apariço, eu sei muito bem

                  que te faz mal tanto viço. (que te faz mal o bom tratamento, a vida folgada)

 

(À parte)

 

APARIÇO    E desdontem não comemos! (e desde ontem não comemos nada)

Vilão farto, pé dormente. (homem de trabalho, quando não tem fome trabalha menos)

Ó Ordonho, como mente! (ó Ordonho, como ele mente!)

 

ORDONHO  Otro mi amo tenemos! (é igual ao meu patrão; realmente é igual ao meu amo)

 

(canta)

 

AIRES        Re mi fá sol lá sol lá.

 

APARIÇO    Vês ali o que t'eu digo. (olha bem ali o que eu te disse)

 

AIRES        Que diabo falas tu? (do que você está falando?)

 

(canta)

 

fá lá mi ré ut

 

(fala)

 

não rosmeies tu comigo. (não resmungues nada de mim)

 

(canta)

 

  "Un dia, era um dia"... (era uma vez...)

 

APARIÇO    Ó Jesu! que agastamento! (ó Jesus, que coisa chata!)

 

AIRES        Dá-me cá esse estromento. (me dê aqui esse instrumento)

 

APARIÇO    Ó que cousa tão vazia! (que coisa mais sem graça)

 

AIRES        Agora qu'estou desposto, (agora que estou disposto, insipirado)

  irei tanger à minha dama. (irei tocar para minha amada)

 

APARIÇO    Já ela estará na cama... (mas ela já está dormindo...)

 

AIRES        Pois entonces é o gosto! (tanto melhor!; pois assim que é bom!)

 

  Tange e canta na rua à porta de sua dama Isabel,

  e em começando o cantar Si dormis, doncella, ladram os cães.

  Ham! ham! ham! ham!

 

AIRES        Apariço, mat'esses cães, (Apariço, mate esses cães)

  ou vai dá-lhe senhos pães! (ou dê a eles alguns pães)

 

APARIÇO    Ele não tem meio pão... (ele não tem nem meio pão...)

 

AIRES        "Si dormis, doncela, (se você está dormindo, minha donzela)

  despertad y abrid." (despertades e abrides)

 

APARIÇO    Ó diabo que t'eu dou, (que o diabo te carregue!)

  que tão má cabeça tens! (que tua cabeça não pensa direito)

  Não tem mais de dous vinténs, (como pode querer tal mulher)

  que lhe hoje o Cura emprestou. (se teu dinheiro acabou)

  (Prossegue o Escudeiro a cantiga)

 

AIRES        "Que venida es la hora, (porque a hora é chegada)

  si quereis partir". (se você quiser ir embora)

 

APARIÇO    Má partida venha por ti! (má partida seja a tua)

  E o cavalo suar. (que o cavalo não agüenta mais)

 

ORDONHO  Y no tienes que le dar? (e não tem nada para dar a ela?)

 

APARIÇO    Não tem um maravedi. (não tem uma moedinha sequer)

  (Prossegue o Escudeiro a cantiga)

 

AIRES        "Si estais descalza," (e se estais descalça)

 

APARIÇO    Eu ma ora estou descalço. (eu infelizmente estou descalço)

 

AIRES        "Nam cureis de vos calzar." (não precisas se calçar)

 

APARIÇO    Nem tu não, tens que me dar, (tu realmente não tens o que me oferecer)

  arrenego do teu paço. (tenho tanta raiva dessas tuas ilusões)

 

AIRES        "Que muchas agoas (muitas situações difíceis; que muitas lágrimas)

  teneis de pasar..." (enfrentarás; tenho que chorar)

 

APARIÇO    Nam jeu; cantá em teu poder, (que nem eu... continuar a teu serviço)

 

AIRES        Ora andar. (apressemo-nos)

 

APARIÇO    Antes de muito: (daqui a pouco; mas não demore muito)

  pois não espero outro fruito, (pois nada tenho a ganhar; não espero outra coisa senão)

  caminhar. (vou-me embora; ir embora)

 

  (cantando)

 

AIRES        "Agoas de Alquebir; (águas de Guadalquivir)

  que venida es la hora, (que é chegada a hora)

  si quereis partir" (de partir)

 

  Aqui lhe fala a moça da janela tão passo que ninguém a ouve, e polas

  palavras que ele responde se pode conjecturar o que lhe ela diz.

 

  Senhora, não vos ouço bem.- (senhora, não a ouço bem)

  Oh! que vos faço eu aqui?- (o que eu quero de vós?)

  Que é senhora?- Eles a mi? (o quê, senhora? a vizinhança vai me atacar?)

  Não hei medo de ninguém. (não tenho medo de ninguém)

  Olhai, senhora Isabel, (veja bem, Dona Isabel)

  nda que tragam charrua, (charrua = veículo puxado por cavalos; ainda que venham em grande quantidade)

  eu só lhes terei a rua (eu lhes impedirei a passagem)

  com uma espada de papel! (com as armas dos meus versos!)

Que são? que são?... rebolarias? (o que são? o que são?... conversa fiada? [rebolarias = palavriados, conversa fiada])

E mais rides-vos de mi!- (e mais o quê? Você está rindo de mim!)

Eu porque m'hei d'ir daqui?- (eu tenho que ir embora daqui?)

  Faço-vos descortesias?- (eu estou deixando você envergonhada?)

  Mana Isabel, ouvis?- (mas cara Isabel? Você esta me ouvindo?)

  Eu que difamo de vós? (eu estou deixando você com má reputação?)

  Oh pesar nunca de Deus! (oh! por Deus, nunca faria isso!)

  Vós tendes-me em dous ceitis.- (Você não está interessada em mim!)

  Não sabeis que me digais?- (não sabe o que está me falando?)

Sabeis quê?-Bem vos entendo.- (conhece minhas intenções? Entendi sua preocupação)

Inda me não arrependo, (mesmo assim não me arrependo)

com quanto mal me queirais. (ainda que você não me queira)

Há hi mais que me perder? (não posso fazer nada, porque estou apaixonado)

Pera que são tais porfias? (para que essas argumentações)

Bem dizeis; porém meus dias (bem, minha vida é breve)

nisto hão-de fenecer. (mas haverei de morrer de amor)

 

(passo)

 

APARIÇO    Dou-te ó demo essa cabeça; (vai ao diabo com essa cabeça!)

não tem siso por um nabo. (dentro dela não tem nada)

 

AIRES        Senhora, isso de cabo (senhora, não entendi a ultima palavra que você falou)

me dizei ante qu'esqueça. (mas deixa-me falar algo a você, antes que esqueça)

Mais resguardado está aqui (muito bem guardado está aqui dentro de mim)

o meu grande amor fervente.- (o meu grande amor fervente!)

Que tendes?... um pé dormente? (o que você tem? O pé dormente?)

Oh que grão bem pera mi! (oh que bom, é sua atenção para mim)

Hi! hi! hi! - De que me rio? (hi hi hi... do que estou rindo?)

Rio-me de mil cousinhas, (rio de coisas pequenas, sem importância)

não já vossas, senão minhas. (para você, mas de grande valor para mim)

 

APARIÇO    Olhai aquele desvario? (olha só que loucura!!!)

 

CÃES         Ham! ham! ham! ham! (os cachorros começam a latir)

 

AIRES        Não ouço co'a cainçada: (não estou ouvindo nada com essa caçoada)

rapaz, dá-lhe uma pedrada, (Apariço, dê uma pedrada neles)

ou fart'os, eramá, de pão! (ou um pão para cada um)

 

APARIÇO              Co'as pedras os ajude Deus!

(Deus guie estas pedras para que elas não os atinja)

 

CÃES         Ham! ham! ham! ham! (os cachorros continuam latindo)

 

AIRES        Pesar não de Deus co'os cães! (Deus não tenha piedade com estes cães)

Rapazes, não lhes dais vós? (rapazes, não estão acertando)

Senhora, não ouço nada. (Desculpe senhora, não estou ouvindo nada!)

Dou-m'ó demo que me leve! (Assim? Eu vou parar no inferno!)

 

APARIÇO    Toda esta pedra é tão leve- (essa pedra esta muito leve)

Tomai lá esta seixada. (tome ai, este seixo!)

 

CÃES         Hãi! hãi! hãi! hãi! (os cachorros começam a cainhar)

 

APARIÇO    Perdoai-me vós Senhor. (perdoe-me, meu Deus)

 

AIRES        Ora fizeste pior. (ora, você fez ele ladrarem mais alto)

Ó pesar de minha mãe! (tenha piedade, minha mãe)

Não vos vades, Isabel- (não vá embora, dona Isabel)

está vossa mercê hi? (você ainda está ai?)

Nunca tal mofina vi (nunca tal vi tanta infelicidade)

de cães!... que sou cruel?... (de cachorros!... o que, eu sou cruel?)

Não há cousa que mais m'agaste, (não há coisa que mais me irrite)

que cães e gatos também! (do que cachorros! E gatos também)

 

GATO         Miau! miau! (os gatos da casa de Isabel começam a miar)

 

AIRES        Oh que bem! (o que coisa “boa”!)

Quant'agora m'aviaste! (era só o que faltava)

Falai, Senhora, a esses gatos, (fale, senhora, faça esses gatos pararem)

e não sejais tão sofrida, (não seja tão ruim)

que antes queria a vida (senão sua casa)

toda comesta de ratos! (vai ficar cheia de ratos!)

Ja tornais ao difamar? (eu voltei a te difamar?)

Quem é o que fala nisso? (mas, quem está dizendo isso?)

Senhora sabei que é um riso (Senhora, eu estava apenas brincando)

quando podeis suspeitar. (isso não pode ser levado a sério)

Que tenham olhos a molhos! (eu não tenho o que esconder de você!)

Vós andais pera me ferir, (você vive para me maltratar)

eu ando pera vos servir, (eu vivo para te servir)

mana, meus olhos. (querida dos meus olhos)

  Vós andais pera me matar.- (você vive para me matar)

  Mana Isabel, olhai: (querida Isabel, veja!)

  que o saiba vosso pai (quero que você saiba)

  e vossa mãe, hão-de-folgar, (que seu pai e sua mãe vão ficar felizes)

  porque um escudeiro privado. (porque suo um escudeiro amigo)

 

APARIÇO                                                                Mas pelado. (mas, pobre!)

 

AIRES                                                    Como eu sou. (como eu sou)

  e de parte meu avô (e, por parte de meu avô)

  sou fidalgo afidalgado. (sou fidalgo)

  Já privança com el´Rei, (sou pessoa próxima do rei)

    a quem outrem vê nem fala. (que ouve sempre o que digo)

 

APARIÇO            Deitam-no fora da sala. (não se aproxima nunca dele)

 

AIRES                                                                                  Senhora, com vosso pai falarei, (Senhora, vou falar com seu pai)

    lá depois dacrecentado. (mais tarde, que vai aumentar minha pensão)

    não quero que me dêm nada! (e que não desejo o seu dote)

 

APARIÇO                                                           Oh como será aviada, (oh! como você vai ter um “grande futuro”)

    e seu pai ancaminhado! (e seu pai está no “caminho certo”)

 

AIRES                                                                             Que tenhais, que não tenhais, (se ele tiver, ou não)

    tenho mais tapeçaria, (tenho mais tecidos luxuosos)

    cavalos na estrebaria, (mais cavalos)

    que não há na corte tais: (e tão fortes e bonitos que não há iguais na Corte)

    vossa camilha dobrada: (você terá um pequeno leito para dormir durante o dia)

    não tendes em que vos ocupar, (você não vai ter o que fazer)

    senão sòmente enfiar (senão somente enfiar)

    aljofre, ja d'enfadada. (pérolas para enfeitar os tecidos, para se distrair)

 

APARIÇO  Ó Jesu! que mau ladrão! (oh Deus! Que mentiroso)

    Quer enganar a coitada. (está enganado e pobrezinho)

 

AIRES       Ide ver se está acordada; (vai ver se sua mãe esta acordada)

    que estas velhas pragas são. (estas velhas são perigosas)

 

GALO Cacaracá!-Cacaracá!... (o galo está cantando)

 

AIRES  Meia-noite deve ser. (deve ser meia noite)

 

APARIÇO    Ja fora rezão comer, (já não há mais tempo de comer)

pois os galos cantam já. (está passando da hora de dormir)

 

(canta)

 

AIRES        "Cantan los gallos, (cantam os galos)

Yo no me duermo, (e eu não consigo dormir)

ni tengo sueño." (não consigo sonhar)

Como! vossa mãe vem cá? (o que? Sua mãe vem aqui)

Cá à rua? pera quê? (aqui na rua, por que?)

Não me dá, por minha fé; (não me importo, por Deus!)

venha que aqui me achrá. (pode vir, ela vai me ver aqui)

 

VELHA       Rogo à Virgem Maria, (peço para a Virgem Maria)

quem me faz erguer da cama, (para esse que me levantou da cama)

que má cama e má dama, (que não durma e ame uma mulher má)

e má lama negra e fria, (que se atole numa lama negra e fria)

má mazela e má courela, (que sofra uma doença terrível e tenha um pequeno terreno)

mau regato e mau ribeiro, (com um péssimo córrego e um rio terrível)

mau silvado e mau outeiro (uma mata e uma péssima colina)

má carreira e má portela, (um mal caminho e uma pequena porta)

mau cortiço e mau sumiço, (uma péssima casa, e que se perca e nunca seja encontrado)

maus lobos e maus lagartos, (e que os piores lobos e lagartos te achem)

nunca de pão sejam fartos; (que morra de fome)

mau criado, mau serviço, (que seja mal servido)

má montanha, má companha, (que ande por íngremes montanhas, e faça péssimas viagem)

má jornada, má pousada, (que sejam ruins todos os seus dias e todos os teus descansos)

má achada, má entrada, (que só encontre coisas ruins, que seja mal recebido)

má aranha, má façanha, (que insetos peçonhentos te busquem, que tudo o que tu faças dê errado)

má escrença, má doença, (que tenha um tumor maligno, uma doença ruim)

má doairo, má fadairo, (e que encontre alguém pra te zombar, que não saibam te curar)

mau vigário, mau trintairo, (que o vigário não saiba benzer, e tenha missa ruim)

má demanda, má sentença, (que procure, mas não ache e tome a pior decisão)

mau amigo e mau abrigo, (que seus amigos sejam ruins, e sua casa caia)

mau vinho e mau vizinho, (que beba um péssimo vinho e tenha um mau vizinho)

mau meirinho e mau caminho, (que a polícia te persiga, que tua vida seja desonesta)

mau trigo e mau castigo; (tenha péssima alimentação, e seja azarado)

ira de monte e de fonte, (que passe por íngremes montanhas, e não tenha nem água pra beber)

ira de serpe e de drago, (que encontre terríveis serpentes e dragões)

p'rigo de dia aziago (que tenhas dias de infelicidade)

em rio de monte a monte, (a cada rio e a cada monte por onde passares)

má morte, má córte, má sorte, (tenhas péssima morte, teus gados sejam doentes, tenham grande azar)

má dado, má fado, má prado, (mau jogo, mau destino, e que passes por campos perigosos)

                                                                             mau criado, mau mandado, (que teu servo e teu amo sejam de má índole)

mau conforto de conforte. (que ninguém te console)

Rogo às dores de Deus (peço para que todo o sofrimento que Deus criou)

que má caída lhe caia, (caia desastrosamente sobre você)

e má saída lhe saia, (e você não saiba como se livrar)

trama lhe venha dos céus. (que do céu caia a pior de todas as pestes sobre você)

        Jesu! que escuro que faz! (Jesus! Só há trevas aqui onde estou)

Ó martere São Sodorninho! (ó S. Sadorninho, santo de todos que precisam de orientação)

Que má rua e má caminho! (que péssimo lugar, que péssimo destino)

Cego seja quem m'isto faz. (que fique cego quem me colocou nessas trevas)

Hui amara percudida, (ai! Como estou perdida e amargurada)

                                                                                             Jesu, a que m'eu encandeio! (Jesus, eu quero morrer)

Esta praga donde veio? (de onde você veio, coisa ruim?)

Deus lhe apáre negra vida. (Deus te dê uma vida cheia de sacrifícios)

 

                                                                                          (canta)

 

AIRES        "Por maio, era por maio." (era em maio, era em maio)

 

VELHA       Hui! hui! hui! que mau lavor! (ai! Que trabalho ruim, que música mal feita)

                  Quem é este rouxinol, (quem é esse rouxinol?)

picanço ou papagaio? (é um passarinho, ou um papagaio?)

Que má ora começaram (já que começaram em péssima hora)

que má saída lhe saia! (que terminem já e vão embora!)

I, eramá, cantar à praia. (vai com o diabo, cantar bem longe daqui, na praia)

Más fadas que vos fadaram! (te revelaram o destino errado!)

A maldição de Modorra, (que você tenha o mesmo destino de comorra)

Debitam e Dabiram, (Dathan e Abiron)

e de minha maldição!- (a de minha maldição!)

ó! Santa Maria m'acorra! (oh, minha Santa Maria de ajude!)

 

(canta)

 

AIRES        "Aparta-me-ão de vós, (estão querendo me afastar de você)

garrido amor!". (meu doce amor!)

 

VELHA                                                          Má partida, má apartada, (tenha uma péssima partida, e uma péssima separação)

mau caminho, má estrada, (que tu corras riscos ao viajar)

má lavor te faça Deus. (que Deus nunca te abençoe)

 

AIRES        "Eu amei uma senhora (eu amei uma mulher)

de todo meu coração: (com intenso sentimento)

quis Deus a minha ventura (foi Deus quem pôs no meu caminho)

que não m'a querem dar não, (e não estão me correspondendo, não)

garrido amor!" (doce amor!)

 

VELHA       Má cainça que te coma, (que os cachorros te mordam)

mau quebranto te quebrante (que te façam um feitiço)

e mau lobo que t'espante. (que um lobo te acorde)

Toma duas figas, toma. (toma duas figas, toma)

Nunca a tu hás-de levar. (nunca você as terá)

Para bargante rascão, (por ser desavergonhado vadio)

que não te fartes de pão, (não tens nem pão para comer)

e queres musiquiar. (e queres ficar cantando)

 

AIRES        "Não me vos querem dar, (não querem te entregar para mim)

irme-ei a tierras agenas, (vou para terras estrangeiras)

a chorar meu pesar, (para chorar meu sofrimento)

garrido amor!" (doce amor!)

 

VELHA       Vai-t'ó demo com sa mãe, (vai-te no inferno, com sua mãe)

e dormirá a vizinhança. (e a vizinhança poderá dormir)

O demo dou eu de ti a criança, (foi o diabo que te criou)

e esse te cá aportou. (e te trouxe para cá)

 

APARIÇO    Dizei-lhe que vá comer, (diga para ele ir comer)

que não comeu hoje bocado. (que hoje ele não deu nenhuma dentada)

 

VELHA       Vai comer, homem coitado, (vai comer, homem coitado)

e dá ó demo o tanger. (manda para o inferno essas músicas)

 E, demais, se não tens pão, (além do mais, se não tens pão)

que ma ora começaste, (que péssima hora para começar)

aprenderas a alfaiate (vá aprender o ofício de alfaiate)

ou, sequer, a tecelão. (ou pelo menos, o de tecelão)

 

AIRES        "Já vedes minha partida. (já estas vendo que estou partindo)

Os meus olhos já se vão; (os meus olhos já estão indo)

se se parte minha vida, (mas, se acaba a minha vida)

cá me fica o coração." (fica o meu coração contigo)

 

Vai-se o Escudeiro, e fica a Velha dizendo à Filha

 

Isabel, tu fazes isto, (Isabel, isto é tua obra)

tudo isto sai de ti. (isto foi por tua causa)

Isabel, guar-te de mi, Isabel, não me diga)

que tu tens a culpa disto. (que tu tens culpa disto)

 

ISABEL       Pois si! eu o fui chamar. (pois sim! Por acaso, eu o fui chamar)

 

VELHA       Ai! Maria! Maria Rabeja! (ai, Maria! Maria Rabeja!)

 

ISABEL       Trama a quem o deseja, (quem gosta de fazer intriga)

nem espera desejar! (faz com quem não gosta de confusão!)

 

VELHA       Que dirá a vizinhança? (o que os vizinhos vão pensar?)

Dize, má mulher sem siso! (dirão que você não tem juízo)

 

ISABEL       Que tenho eu de ver co'isso. (já falei que não tenho nada haver com isso)

 

VELHA       Como tens tão má criança! (nem ousas ter, que não fostes mal criada!)

 

ISABEL       Algum demo valho eu, (eu sou uma desgraçada)

e algum demo mereço, (eu mereço infelicidade)

e algum demo pareço, (eu mereço ir para o inferno)

 pois que cantam polo meu. (só porque cantaram para mim)

Vós quereis que me despeje, (você quer que eu fique calma)

vós quereis que tenha modos, (quer que eu tenha boas maneira)

que pareça bem a todos (quer que eu esteja sempre arrumada)

e ninguém não me deseje? (e não quer que me despejem?)

Vós quereis que mate a gente, (você quer que eu impressione a todos)

de fermosa e avisada; (com beleza e descrição)

quereis que não fale nada; (e quer que ninguém perceba)

nem ninguém em mim atente? (que ninguém atente para mim?)

Quereis que creça e que viva, (você quer que eu cresça e viva)

e não deseje marido; (sem desejar ter um marido)

quereis que reine Cupido, (você que diante do sentimento)

e que seja sempre esquiva. (eu esteja sempre em fuga)

Quereis que seja discreta, (quer que eu seja ingênua)

e que não saiba d'amores; (e não saiba nada sobre relacionamentos amorosos)

quereis que sinta primores (quer que eu escute os elogios)

mui guardada e mui secreta. (e fique sempre guardada)

 

VELHA       Tomade-a lá! Hui, Isabel! (olhe para isto! Ui, Isabel!)

Quem te deu tamanho bico, (quem te fez tão faladora)

rostinho de celorico? (rostinho de cera?)

És tu moça ou bacharel? (es uma moça ou um advogado?)

Não deprendeste tu assi (aprendestes a falar desse modo)

o verbo d'anima Christe (decorando as orações dos enforcados em latim)

que tantas vezes ouviste. (que muitas vezes ouviste)

 

ISABEL       Isso não é pera mi. (decorar orações em latim não é importante para mim)

 

VELHA       E pois quê? (o que é então?)

 

ISABEL       Eu vo-lo direi. (eu já direi a você)

Ir a miúde ao espelho, (ir constantemente ao espelho)

e poer de branco e vermelho, (e experimentar várias cores de maquiagens)

e outras cousas que eu sei: (e outros vários tipos e tons)

pentear, curar de mi (gosto de pentear e de me enfeitar)

e poer e ceja em direito; (de corrigir minhas sobrancelhas)

e morder por meu proveito (e morder, em meu benefício)

estes beicinhos assi. (estes beicinhos assim, desse modo)

Ensinar-me a passear, (ensinaram-me a saber me apresentar)

pera quando for casada; (para quando estiver casada)

não digam que fui criada (não digam que fui crida)

em cima d'algum tear: (com trabalhos pesado)

saber sentir um recado, (saber ouvir uma declaração)

responder em improviso ( e saber responder de modo imediato)

e saber fingir um riso (saber fingir estar bem)

falso e bem dissimulado. ( ser falsa e dissimulada)

 

VELHA       E o lavrar, Isabel? (e a costurar, Isabel?)

 

ISABEL       Faz a moça mui mal feita , (faz a moça ficar feia)

corcovada, contrafeita, (corcunda, toda torta)

de feição de mio anel; (do feitio de meio anel)

e faz muito mau carão, (e faz com muito mau gosto)

e mau costume dolhar. (fica infeliz, insatisfeita)

 

VELHA       Hui! pois jeita-te ao fiar (ah! Mas te acostuma a fiar)

estopa ou linho ou algodão, (estopa, linho ou algodão)

ou tecer, se vem à mão. (ou tecer, o que vier usando mão)

 

ISABEL       Isso é pior que lavrar. (isso é pior que costurar)

 

VELHA       Enjeitas tu o fiar? (tu recusas o fiar?)

 

ISABEL       Que não hei-de fiar não. (não quero fiar, não)

Eu sou filha de moleira? (eu sou filha de dono de moinho, para trabalhar tanto?)

Em roca me falais vós? (você me fala de instrumentos de fiar?)

Ora assi me salve Deus, (se for assim, Deus me livre)

que tendes forte cenreira. (terei muita falta de vontade em aprender)

 

VELHA       Aprende logo a tecer. (neste caso, aprende a tecer)

 

ISABEL       Então bulir co fiado: (então, devo aprender e trabalhar com tecidos)

achais outro mais honrado (procure uma coisa mais)

ofício pera eu saber? (interessante para eu fazer?)

Tecedeira viu alguém, (sempre se viu uma mulher que tece)

que não foi buliçosa, (ser agitada)

cantadeira, presuntuosa? (gostar de cantar e ser presunçosa?)

E não tem nunca vintém. (mas não tem nenhum dinheiro)

 E quando lhe quebra o fio, (e quando um fio quebra)

renega coma beleguim. (resmunga como um policial)

Mãe, deixai-me vós a mim, (mãe, me deixe em paz)

vereis como me atavio. (que eu sei como parecer bela)

Isto vai sendo de dia, (o dia esta amanhecendo)

eu quero, mãe, almoçar. (eu quero mãe, alguma coisa para comer)

 

VELHA       Eu te farei amassar. (eu vou te ensinar a amassar o trigo)

 

ISABEL       Essa é outra fantesia! (essa é outra fantasia)

 

E com isto se recolhem, e fenece esta farsa.

 

 

O Humanismo e a História de Portugal

 

Podemos marcar o início do Humanismo em duas datas: 1418, ano em que Fernão Lopes foi considerado o guarda-mor da Torre do Tombo, ou 1434, quanto a sua promoção a cronista-mor do reino de Portugal.

 

A época do humanismo em Portugal (1418-1527), em grande medida, confunde- se com o período histórico da dinastia de Avis (1385-1580), quando o país viveu profundas transformações. Portugal não conheceu a descentralização política como toda a Europa a havia conhecido. Desde a fundação do reino por D. Afonso Henriques (1112-1185) o poder esteve centralizado no monarca. Com a dinastia de Avis, fundada por D. João I (6/4/1385-14/8/1433), a monarquia se fortaleceu, fato que resultou no absolutismo de D. João II (28/8/1481-25/l0/1495). Além da implantação do absolutismo, deu-se a expansão marítima, que transformou Portugal num grande e rico Império. Em função disso, Lisboa tomou-se uma das cidades mais importantes da Europa, um pólo de atração de capital, inteligência e aventureiros de toda parte.

 

Do ponto de vista cultural, também ocorreu um desenvolvimento sensível. A Universidade de Coimbra foi prestigiada, as ciências e as artes tiveram incentivo, as belas artes foram amparadas e a literatura teve reconhecimento, beneficiando-se da imprensa mecânica de Gutenberg.

 

 

O TEATRO VICENTINO:

 

     Calcula-se que Gil Vicente tenha nascido em tomo de 1465, talvez na província da Beira. Nada sabemos de sua origem social e formação; percebe-se, pelas obras, a cu1tlura humanística adquirida em boa educação.

 

     A primeira notícia segura do autor data de 1502, ano em que fez sua estréia como homem de teatro.(escrevendo e representando para a rainha o alto da Visitação, também conhecido por Monólogo do vaqueiro). A partir de então e ao longo de mais de três décadas, desenvolveu sua carreira de dramaturgo encenado na corte dos reis D. Manuel e D. João. Nesse período, produziu obra volumosa, composta de mais de quarenta peças de teatro, além de poemas líricos, que figuram entre os notáveis do Cancioneiro geral de Garcia de Resende.

 

     A coragem que Gil Vicente demonstra em seu teatro crítico, fustigando todos os setores da sociedade de seu tempo, pode ser também apresentada neste episódio de sua vida:

 

     Em 1531, um terremoto atingiu Portugal violentamente, e os padres atribuíram a tragédia à ira de Deus, espalhando pânico entre o povo e fomentando as perseguições religiosas. Gil Vicente pronunciou um vigoroso discurso na à idade de Santarém, condenando o alarmismo irresponsável dos padres, além de escrever uma carta ao rei, expressando repúdio à intolerância religiosa que vitimava os judeus.

 

O prestígio de Gil Vicente na corte despertou a inveja de muitos, que o caluniavam, acusando-o de plagiar o teatrólogo castelhano Juan del Encina. Para calar as maledicências Gil Vicente pediu um mote (tema) sobre o qual desenvolveria uma peça. Seus detratores escolheram o ditado popular "mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube". Assim nasceu a Farsa de Inês Pereira, uma das obras-primas de Gil Vicente.

 

A última peça de Gil Vicente foi a Floresta de engano, DE 1536, ano do estabelecimento da Inquisição em Portugal. A pós essa data não se tem mais notícias da vida do autor.

 

 

RESUMO – QUEM TEM FARELOS? Gil Vicente

 

     Nesta obra, Gil Vicente consegue mostrar todo seu lado irônico e divertido, pois mesmo encenada na época do Humanismo, notamos os traços modernos em suas peças teatrais. Notamos o cotidiano familiar, o fato  de jovens mulheres deixarem–se enganar por galanteios e canções belas.  Isabel lembra as moças de hoje (eu disse moças ????) que desejam sua liberdade através do casamento e nem ligam para suas mães que tentam proteger suas inocentes filhas dos gaviões que transitam a procura de vítimas. Outro tema atual e a questão da aparência, o poder, o dinheiro, pois Aires Rosado não assume que é um fidalgo decadente  e tenta convencer Isabel a casar com ele e seu “fiel” servo a não abandoná-lo .

     O autor debocha do amor, do cavaleiro, e do ar inocente das donzelas. 

     A obra inicia quando o criado de Aires Rosado, Apariço, e o seu amigo Ordonho iam comprar farelos para as montarias dos seus amos.

Os dois serviçais traçam comentários críticos sobre seus amos, porém o mais criticado é Aires Rosado, onde é apresentado como um sujeito maluco, apaixonado pelas mulheres que chega a deixar sua casa de lado, sem se preocupar com a alimentação.

      Em algumas partes da obra , notamos que o criado, Apariço, chega a ridicularizar seu amo.

      Quando Aires Rosado tenta de todas as formas criar um clima entre ele e sua amada Isabel, todos parecem evitar o galanteio do personagem: a velha que fica o tempo todo resmungando; a má vontade de Apariço que contraria seu amo a toda hora; a sua amada que sofre de um problema de audição; e até os animais que latem e miam logo na hora que o personagem tenta convencer Isabel através das suas trovas. Notamos nessa parte da obra a relação amo X servo, onde Aires Rosado ordena a seu criado, que cumpre as ordens sempre resmungando. As cantigas de Aires lembram as Cantigas de Amor, onde o homem sofre por sua amada e não é correspondido os seus sentimentos.Com isso é feita uma crítica as trovas que estavam desgastadas. Aires, de madrugada, canta as trovas, provavelmente suas que declara seus bens, para impressionar sua amada ( tudo “papo furado”). Nota-se que Apariço resmunga a cada verso de seu amo, e Isabel parece não está gostando da serenata, pois indaga o motivo da mesma e ri de tudo aquilo que se passa, porém e ela que alerta o poeta que sua mãe ( a Velha), está indo falar com ele. A mãe joga várias pragas ao trovador, que nem liga e continua cantando, só para a cantoria quando ela diz saber das privações que ele passa, que acaba humilhando o pobre coitado, que acaba partindo dali. No final da farsa  a Velha e sua filha ficam discutindo sobre o escudeiro, onde a mãe tenta convencer sua filha que ele não seria um bom partido para ela A mãe e a filha discutem sobre o acontecimento, a Velha acusa Isabel por todo aquele vexame que aconteceu em frente de sua casa, contudo Isabel defende-se dizendo não ter chamado o escudeiro e retruca, se não pode receber nenhum elogio, pois mostra-se ma moça culta, bela e que sempre cumpre as suas obrigações. A Velha aproveita a fala e de uma forma maternal, diz a filha que ela deve se preocupar em aprender uma ocupação, para desenvolver no lar. Isabel não aceita os fatos, pois isso significava uma oposição à sua beleza e vaidade. Sendo assim o escudeiro acaba sucumbindo para o mal, pois a batalha quem vence e a velha que não queria Aires Rosado “nem pintado de ouro.”

   

     Gil Vicente não se preocupa com o espaço e o tempo em suas obras como notamos no seguinte fragmento, os personagens estão na rua e frente à casa de Isabel :

     “ Aires – Agora qu’ estou desposto

               irei tanger à minha dama.

     Apariço – Já ela estará na cama...”

 

Sendo assim o autor efetua as mudanças espaciais e temporais, onde é apresentado essas mudanças através das falas das personagens.

 

PERSONAGENS

 

Aires Rosado (o escudeiro): é o personagem principal, pois toda a farsa gira em torno de seu nome. É apresentado como um sujeito enganador, covarde, fútil e amador em respeito a música e a poesia. Porém, é um grande apaixonado, desdenha toda a praga que a velha lhe dirige.

 

Isabel (a moça da vila): na obra, mostra-se falsa, irônica e preguiçosa, pois não quer nenhum tipo de trabalho. Sua maior preocupação e o namoro.

 

Ordonho e Apariço (os servos): aparecem fazendo críticas aos seus amos. Apariço critica Aires Rosado e Ordonho um escudeiro anônimo. A função dos escudeiros nas obras é desmistificar o figurado escudeiro.

Porém, ambos nada fazem para mudar essa situação de ócio. Nota-se que há uma preocupação em destacar a preguiça.

- Apariço comenta sobre os hábitos de seu amo, sendo que os mais satirizados são:

O bem-estar – Aires aparenta estar bem, mas na verdade não tem o que comer, nem o que vestir.

A valentia – Ele gosta de se vangloriar, mas um dia levou uma surra num beco e não reagiu.

O galante – Parece estar apaixonado, passa o dia penteando o cabelo e fazendo trovas para a sua amada, mas sem dinheiro nem uma mulher vai se interessar por ele.

 - Ordonho diz que seu amo também é assim. Revela que ele fica falando de batalhas, armas, grandes generais, mas foge para os vales quando ouve uma briga de gatos.

Ambos tratam seus amos como preguiçosos, presunçosos, arrogantes, galanteadores e passam grandes privações ao lado deles, mas não os abandonam, pois esperam uma indicação para servirem na Corte.

Os comentários de Apariço sobre as mulheres são bem depreciativos. Elas são vistas como oportunistas e materialistas ao extremo. Eles revelam gostar de moças que não trabalham pesado, que cuidam da aparência. Isso tudo é um claro reflexo da degeneração moral da sociedade portuguesa, documentada por Gil Vicente.

 

Velha (mãe de Isabel): Seria o contraste da preguiça, vista nos outros personagens. É apresentada como supersticiosa e declama frases religiosas, fato tão criticado pelo autor.

Mostra-se altamente interesseira, pois preocupa-se com as atividades de Aires Rosado, que só vivia em tanger e cantar, e não observava nenhum tipo de lucro de imediato.

 

Quem tem farelos? (Gil Vicente)

Contexto histórico: Humanismo (1434 – 1527)

 

ROTEIRO DE LEITURA

 

O texto estudado apresenta notas explicativas. Alguns grifos são particulares e objetivam facilitar o contato e a leitura, uma vez que a transcrição originalmente erudita pode desencorajar em conhecer a obra.

Quem tem Farelos? É uma descrição de vários fatos que integram o comportamento social português durante o processo de formação da sociedade mercantil portuguesa em franco desenvolvimento e transição.

O Quem tem Farelos? traça um perfil social de Portugal contemporâneo a Gil Vicente, portanto, existem alguns provérbios e/ou cantigas populares no corpo da peça que precisarão ser contextualizados.

Essa farsa é uma sátira social que critica as relações de poder existente nas camadas populares. Sua principal figura é a ironia.

Pode ser dividido em quatro momentos: um encontro casual, as cantigas de Aires, a serenata e o conflito de gerações.

 

 ESCUDEIRO

 Correspondente a uma antiga função militar, o escudeiro perdera, na época de Gil Vicente, sua razão de ser. Tornou-se uma classe parasitária, sem base econômica nem atividade determinada. Um escudeiro podia ser nobre ou não. Na antiga organização militar esse era o primeiro posto do nobre e o mais alto do não nobre. A camada dos escudeiros constituía uma zona de transição e era formada por todos os que aspiravam a servir na corte, e, portanto, para uma multidão de aventureiros e ociosos, que passavam fome para aparentar “estado” e viviam de expedientes, como a rufionagem. (...) era pois um segmento fundado numa aparência e representava a linha em que o explorado se transformava em explorador. Por isso, Gil Vicente fez deles um dos alvos prediletos de suas sátiras.