Belém do Grão-Pará – Dalcídio Jurandi

Em Belém do Grão-Pará, Dalcídio dá como sempre nos seus romances paraenses, hábitos, costumes, o linguajar de nossa gente. (Eneida de Moraes)

 Publicada em 1960, a obra Belém do Grão-Pará é o quarto romance do Ciclo do Extremo Norte. Após esse evento, Benedito Nunes deu o seguinte depoimento:

 Com a publicação de Belém do Grão Pará (...), Dalcídio Jurandir firma em definitivo o seu nome como introdutor da paisagem urbana da Amazônia na literatura brasileira de ficção.

Tal comentário se deve ao fato de que, diferentemente dos três romances anteriores, a trama de Belém do Grão-Pará se passa na capital do Estado, isto é, em um centro urbano e não mais no campo.

Agregada a isso, está a magnificência da obra, justificada mais tarde com duas premiações de cunho nacional (Paula Brito da Biblioteca do Estado da Guanabara e Prêmio Luiza Cláudio de Souza, do Pen Club).

 Um detalhe importante é que o escritor, mesmo trazendo sua narrativa para a cidade grande, não abandonou o linguajar popular, ou seja, Dalcídio continuou deixando vazar em seu texto o sotaque paraense em todas as suas nuanças (a fala do povo urbano e do povo interiorano).

Além disso, Belém do Grão-Pará pode ser considerado como um documento histórico por registrar uma época decadente da cidade de Belém. A época em que todo o glamour trazido pelo auge da borracha se desfazia pouco a pouco deixando saudades naqueles que bem aproveitaram as glórias da Bélle Epóque.

 

Em Belém do Grão Pará, Dalcídio Jurandir transporta o leitor simultaneamente a duas Beléns: a Belém, luxuosa de Antônio Lemos e a Belém decadente pós essa “época de luz”, contrastando-as e despindo-as através das falas das personagens.

O Menino Alfredo é trazido pela mãe, a negra d.Amélia, para Belém objetivando estudar. Na cidade, o menino fica hospedado na casa dos Alcântaras, família falida após a queda do Intendente Antônio Lemos, formada por Seu Virgílio, D. Inácia, Emília. (filha do casal) e Libânia, (uma cabocla criada desde de criança para servir à família).

Muito encantado pela cidade, o menino faz mil e uma descobertas levado pelos braços da família que o acolheu.

Segundo Benedito Nunes, esse romance é não só sobre o menino Alfredo e seu mundo de descobrimentos, fantasias e lembranças, como também da família Alcântara e adianta a sorte dos ex-fidalgos:

“Na tentativa de Recuperar, pelo menos, a aparência da posição perdida, os Alcântara, sob a inspiração da fútil e gorda filha do casal, mudam-se da obscura rua onde moravam para a Av. Nazaré, onde se concentravam os ricaços, em geral fazendeiros da ilha do Marajó, mas vão ocupar aí uma casa em ruína, devorada pelos cupins. “Quando a nova e chique residência ameaça desabar, a família, com a ajuda dos empregados, carrega, de noite, os poucos móveis que lhe restam, para a acolhedora sombra das mangueiras, à beira da calçada.”

 

A ESTÓRIA NA HISTÓRIA

Vamos conferir agora alguns pontos importantes que devem ser destacados do romance de Dalcídio Jurandir. Comecemos por conhecer a Belém do Grão Pará que o escritor retratou no livro.

 

Bélle Epóque

Você, caro aluno, que vive na era das raves e das aparelhagens de som, pode não imaginar que há alguns anos atrás, Belém do Pará, nossa querida cidade das mangueiras, já foi comparada à capital francesa.

Pois é, graças ao auge da borracha, Belém pôde sentir o gosto de ser uma grande metrópole, a Metrópole da Amazônia. Valorizou muito a cultura e, por isso, tivemos muitos privilégios que nenhuma outra cidade do Brasil teve.

Nossa Igreja da Sé, Nossa Basílica de Nazaré, entre outros belíssimos prédios foram arquitetados pelo italiano Antonio Landi, introduzindo no Brasil a
Arte Neoclássica.

O belíssimo complexo de Francisco Bolonha, que engloba o palacete mais a vila a si agregada, é outra lembrança que nos ficou desta época maravilhosa.

Era costume realizar festas, saraus, óperas, operetas, consertos. Era costume de algumas famílias mandarem suas roupas para serem lavadas na Europa. Assim como era costume falar sobre arte. O chique era ser inteligente.

Não foi a toa que nossa cidade era conhecida como Belém de Paris, por parecer uma réplica da capital francesa em plena Amazônia.

Essa época áurea teve início no ano de 1870 e durou pouco mais de quarenta anos.

 

Época das vacas gordas.

1840. Esse foi o ano que marcou o início da mais bela época já vivida pela região Norte do Brasil. Uma época que, até agora, foi única em matéria de riqueza e, principalmente, de bom aproveitamento dessa riqueza.

Na primeira metade do século XIX, o Pará exportava as chamadas “drogas do sertão”, no entanto, na outra metade do mesmo século, com a invenção dos pneumáticos e o desenvolvimento dos transportes, principalmente dos navios a vapor, o mercado europeu começou a necessitar da borracha produzida com o látex extraído das nossas seringueiras. Assim, a procura por esse produto ficou ainda maior.

A economia brasileira, em especial a amazônica estourou! Foi o maior boom já acontecido em todos os tempos para os lados de cá.  A demanda era tanta que nordestinos em busca de uma vida melhor, começaram a imigrar para o norte, seduzidos pela chance de conseguir um bom emprego nos seringais.

No livro de Dalcídio Jurandir, o cearense Virgílio Alcântara representa essa época.
O fato é que, a exportação da nossa borracha nos rendeu bons ganhos monetários, o que possibilitou a urbanização das capitais nortistas.

Em Belém, quem governada era o jornalista Antônio Lemos. O dono da Província do Pará, pretendeu fazer da capital que administrava, uma réplica das cidades francesas, por isso, investiu em prédios públicos luxuosos, promoção de eventos culturais para o povo, arquitetura de boulevards, entre outros.

A família Alcântara, por sua vez, degustou de todo esse glamour. Reclamando da engorda obtida com a pobreza, D. Inácia mostra um pouco das boas épocas vividas por ela na seguinte fala:

“(...) No tempo da champanhe escorrendo pelos babados, ensopando mangas dos fraques, das pipas rolando pelo corredor, das gardênias que os Alcântaras mandavam para o peito da sobrecasaca do senador Lemos, no tempo em que tínhamos a bem dizer o Mercado dentro da despensa na Vinte e Dois, gordos não havia na família. Agora, com o feijãozinho boca-preta da Estrada, o naco da jabá e a farinha seca, vieram estas...”

A decadência

Como diria o velho ditado popular, felicidade de pobre dura pouco. E, foi então que o conto de fadas vivido pelos belenenses teve seu fim com a derrocada da exportação da borracha para o mercado internacional.

Segundo a professora Maria de Nazaré Sarges[1], uns dos fatores que contribuíram para esse desaceleramento na economia foram “a falta de uma classe política que brigasse pelos interesses da região; o descaso do Poder Central e as vultuosas remessas de lucro para o exterior.”[2]

[1] Professora da UFPA. Mestra pela UFPE e Doutora pela UNICAMP.
[2] SARGES, Maria de Nazaré. Belém: Riquezas produzindo a Belle-Époque (1870-1912). Belém: Paka-Tatu, 2000. (p. 59)

Belém-do-Grão Pará mostra essa época de frustração. A família Alcântara, como já foi dito antes, representa muito bem esse descontentamento do povo com o término da era mais bela já vista aqui nesta cidade. A mais “revoltada” com isso é  Dona Inácia, que não se cansa de relembrar a época do governo lemista.

No capítulo 4, aparece um personagem que é o retrato mais exato do que foi o sofrimento daqueles que caíram junto com Antônio Lemos: seu Barbosa. Na época do auge da borracha, ele ganhara muito dinheiro como aviador. Detinha de todo o luxo possível. Comia do bom e do melhor e era vizinho do ex-Governador (isso parecia ser muito honroso para ele, para a família e para quem o conhecesse).

Após a queda do governo Lemos, Seu Barbosa ficou muito pobre e, ao que tudo indica, muito doente também. O luxo que a família ostentava apareceu no romance apenas através das lembranças de Alfredo.

As lembranças

Para nós que vivemos em pleno Século XXI, voltar à essa época de ouro de nossa cidade, só nos é possível através de livros e dos prédios que ainda restaram dessa época.

Alguns deles como o Teatro da Paz, a Basílica de Nazaré, a praça da República e a praça Batista Campos ainda podem ser considerados como “conservados”, porém outros, infelizmente, foram entregues ao descaso e não mais existem.

Uma outra maneira muito funcional de voltar à Belle-Époque é lendo ‘Belém-do-Grão Pará”! Você ainda vai poder sentir o gosto das melhores bebidas francesas, ouvir os mais belos concertos e sentir os mais macios cetins  através da memória dos Alcântaras.

 

PERSONAGENS
As personagens principais que atuam em Belém do Grão Pará, são a priori, bastante típicas, sem grandes conflitos existenciais. No entanto, Dalcídio foi grande e soube dar à essas simples personagens um caráter rico psicologicamente. Vamos relembrar quem era quem:

Seu Virgílio Alcântara: É cearense. Representa a época da migração nordestina para o Pará
Dona Inácia Alcântara:
Esposa de Seu Virgílio. Não se conforma com a atual situação da família e, de vez em quando, dá umas espetadas no marido culpando-o pela atual situação “desonrosa” da família.

      É uma mulher que se impõe sempre. Na época dourada, estava à frente de um movimento feminino. Aceitou acolher Alfredo, pois via nele a chance de poder criar o filho homem que sempre desejara ter.

Emília Alcântara (Emilinha):

Libânia:  Era a jovem criada dos Alcântara. Tinha quinze anos e fora “adotada” pela família ainda bem criança.

As Veigas: Eram as cunhadas e a sobrinha de Seu Virgílio. Visiam a visitar a família constantemente.
Dona Amélia:
Era uma negra que tivera um filho de um branco, o Major. Procurara os Alcântaras para pedir abrigo para o filho no período em que o menino ficasse em Belém para estudar

Isaura: Era uma costureira amiga dos Alcântaras, principalmente de Emilinha. Era prima de D. Amélia e intermediara a vinda de Alfredo para Belém.

Andreza: Pode-se dizer que esta era a “namoradinha” de Alfredo. Um dos motivos que mais levavam a mente do menino a mergulhar nas lembranças do chalé.

Mãe Ciana: Era considerada como feiticeira por ter um grande conhecimento acerca de ervas e cheiros. Era tia de D. Amélia. Morava com a sobrinha Isaura. Esta é uma personagem secundária do romance de Dalcídio, no entanto, pode representar a pajelança conservada ainda nos dias de hoje pelas atuais fazedoras de cheiro do Ver-o-Peso.

 

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Como dantes já foi dito, Belém do Grão-Pará é uma obra prima da literatura brasileira. Considerada por muitos como um romance regionalista, configura-se também como uma espécie de documentários, visto que mostra, através das ações das personagens, um pedaço da história da cidade de Belém.

Você, aluno, pode alegar falta de tempo para fazer a leitura completa do livro, no entanto, pense bem, pois vale a pena investir uma horinha do seu dia corrido para se deliciar com esta grande obra. Quem é de Belém, se sente em casa, pois reconhece na fala das personagens um linguajar bastante familiar. Talvez um pouco mais “acaboclado”, mas quem nunca falou um ”eras de ti!”, ou um “aquele-um”? Essa fala cabocla que cheira a cheiro-cheiroso?

Os “estrangeiros” também podem se deliciar com este falar, muitas vezes, engraçadíssimo (note, não é “engraçado” no sentido de ser ridículo, mas “engraçado” no sentido cômico da coisa).

 

Dalcídio, Alfredo e Belém

 A relação de amor que o menino mantém com a cidade desde a hora em que o navio aporta no Ver-o-Peso é explícita. Tudo aquilo que para os moradores da cidade não tinha valor por ter se tornado corriqueiro, para ele era um mundo maravilhoso: os automóveis, o comportamento das pessoas da cidade, o ar que se respirava, tudo era motivo de admiração para Alfredo.

Longe de ser o tiobimba ou o matuto que D.Amélia, a mãe do garoto, o adjetivava, ao observar e esmiuçar vários detalhes da cidade, Alfredo a deglutia como quem estivesse por provar pela primeira vez o manjar dos deuses.

Dalcídio Jurandir, em uma entrevista com a saudosa Eneida de Moraes, declara:
Em Belém do Grão Pará, está muito do meu primeiro amor à cidade e um pouco do meu desprezo e enjôo pelo que a enfeia. Utilizei uma expressão, vamos dizer, mais limpa, mais aproximadamente adequada ao que tento comunicar.

Sendo assim, por quê não dizer que as primeiras impressões que Alfredo tivera da cidade não foram retratos da memória do Dalcídio menino que chegava nesta mesma cidade com o mesmo objetivo que o do personagem:estudar?

Concorde o aluno ou não, é fato que muitas vezes as falas não só de Alfredo, como das outras personagens, se misturam ao pensamento do narrador, tornando quase impossível separar um do outro.

As atitudes de Emília

 Futilidade é um adjetivo que muito bem cabe à filha do casal Alcântara. Louca por bailes e coisas da moda, criada para viver fazendo nada dentro de casa, Emilinha é daquelas mulheres apáticas ao mundo e que aceitam tudo, contanto que tenham uma vida regada a caprichos e regalias.

Criada na época de ouro da família, a moça teve tudo de bom que uma mulher poderia ter na sua educação. No entanto, a preferência por coisas fúteis não a deixaram aproveitar muito bem essa oportunidade. Um exemplo disso é o piano abandonado no canto da sala. Um belíssimo instrumento, de boa qualidade pelo que contam as descrições, mas calado. Silencioso.

Sua brilhante idéia de “tirar” a família da 160 para uma casa em ruínas que ficava no meio das residências dos poderosos, foi o ato máximo de sua superficialidade.

Infelizmente, até a tão esperta Dona Inácia embarcou na tolice da filha e todos acabaram se dando mal.

Emilinha é a figura das pessoas que optam por viver em um universo de realidade obscura, mas aparência rica. Longe de ser uma característica peculiar do paraense, mas esse defeito humano é bastante criticado por Dalcídio.

Você pode se perguntar, como assim, criticado? Ora, Emilinha não tinha uma vida produtiva! Era uma mulher que brigava com a mãe pelo apadrinhamento de Alfredo, para ter, enfim, uma responsabilidade. Sua reputação não era de toda intacta, a se comprovar com o suposto e súbito romance dela com o leiteiro Agostinho.

É uma personagem que, por mais simples e previsível que possa ser, ganha uma psique complexa sob a guarda de Dalcídio. Apesar das atitudes fúteis, os pensamentos possuem certa profundidade.