|
AUTO DA ÍNDIA Maria Amélia Pereira dos Santos
O teatro de Gil Vicente inscreve sua marca na literatura de todos os tempos. No que toca às linguagens do discurso dramático e em relação ao desenvolvimento da intriga, o teatro vicentino revela um aprimoramento notável dentro do século XVI, época em que foi produzido. Entre os gêneros explorados pelo autor está a farsa, integrada por elementos populares, onde a sátira encontra sua construção no tom sutilmente irônico, jocoso e por vezes até um pouco grosseiro. O Auto da Índia, farsa que retrata a mulher e o casamento, apresenta-se dividida em três unidades estruturais, tais sejam elas a expectativa da partida do Marido vivida por Ama, o adultério de Ama e o regresso do Marido. No Auto da Índia, vê-se a marca do gênero medieval, ainda alheio à estética clássica. O tempo é dramático, psicológico, acontecendo em um crescendo para sugerir ao espectador a sensação da passagem do tempo. A ação vai abranger vários planos da realidade e da alegoria e as unidades de tempo, ação e lugar exigidos pelo classicismo são abandonadas por Gil Vicente, para quem, notavelmente, os compartimentos não são fechados nem estanques. A ação acompanha a vida, sem reducionismo, com suas grandezas, mesquinharias, povoada dos grandes e pequenos dramas vividos pelo homem. Em sua estrutura, o Auto apresenta-se em cinqüenta e oito estrofes, quase todos de nove versos (quarenta e nove), sete de oito versos; um de sete e um de dez. A fluidez das ágeis redondilhas e amplos versos associa-se à concepção de vida palpitante, sinuosa, entremeada de pequenos e grandes dramas. O léxico põe em relevo o português marcado pelo real, cotidiano e abandona o saiagüês, que era o falar rústico. Fiel ao hábito do século XVI, o Espaço se circunscrevia à câmara (quarto de dormir) que servia como sala de visitas. A cena é dividida à maneira medieval, em quatro partes: quintal à esquerda, em seguida, a câmara (onde quase toda a farsa é representada), janela à esquerda, porta à direita. A câmara é guarnecida de uma cama, um banco, uma roca. Segue-se a cozinha com uma lareira onde queimava o fogo, que a determinada altura da farsa é apagado e logo reacendido; três ou quatro panelas encontram-se em cima da lareira, tigelas no chão, onde um cão e gatos comiam. O léxico vicentino já é construído a partir da cena e de seus adornos: os objetos que se resumem a artigos do fazer doméstico tecem a linguagem permeada pela denúncia do quase encarceramento vivido pela mulher portuguesa da Idade Média. Há uma crítica ao espaço da mulher: o espaço da casa, sendo-lhe defeso o espaço da rua. À mulher casada, que não podia sair à rua sem o marido, e à falta deste, deveria estar acompanhada de damas e escudeiros, cabia apenas a roca e a cozinha e nenhuma vida social.
O Castelhano procura conquistar a Ama. O que diz sobre ela não é exatamente o que pensa. Usa hipérboles, sua fala é estereotipada, carregada de figuras de retórica com o fito de caracterizar o fanfarrão, pondo-o em ridículo. Lemos é um tipo de homem rude a quem a Ama cede aos desejos, mas não tão facilmente. O Marido é ingênuo e fraco, deixando-se facilmente enganar por Ama. Cumpre destacar que o marido não recebe um nome. Essa não-nomeação é intencional. Remete ironicamente à pequenez do personagem, sem expressão, àquele que tem um lugar de não-destaque dentro da história. O Auto da Índia tem como principal personagem a Ama. Ela é a Constança que vai antecipar as grandes figuras femininas criadas pelo Autor, a partir de Sibila Cassandra, passando por Isabel de Quem Tem Farelos?, Rubena, Cismena e Inês Pereira. Outrossim, evidencia-se desde o nome da Ama - Constança - todo o processo de estruturação da narrativa que acontece pelo viés da figura da mulher que é deixada em casa, entregue ao sem-sabor do dia-a-dia e que sonha com uma vida de prazer, bem longe do marido. A visão irônica da traição e da infidelidade, que enfim não parece ser desmascarada, se evidencia no nome Constança, que constrói a idéia do duplo, da máscara.
Há, também uma duplicidade em Gil Vicente que se tece no texto: uma que mostra uma Ama infiel, cheia de artimanhas, indiferente quanto o destino do marido; outra, de uma Ama vítima do abandono e do egoísmo do marido. Gil Vicente cria a reflexão pela oposição: a mulher é apresentada como adúltera, no entanto, ela foi abandonada em casa, obrigada a viver em cárcere privado, enquanto o marido, tomando as rédeas de sua própria vontade, parte à procura de aventuras, riquezas e glórias em terras distantes, deixando-a presa da incerteza de sua volta.
Nesses versos pronunciados por Ama instala-se uma narrativa polifônica, onde a personagem feminina adota uma entre as várias verdades, ou os vários estados d'alma de que é portadora. Há também nessa primeira passagem a presença da força erótica. A mulher que quer fugir à mesmice, e quer ter uma atitude de gozo diante da vida, afugentar o tédio, entregue ao novo, ao calor da estação e a todos os sentimentos que com ela são despertos, entregue ao desejo de ser e estar alegre. Nítida é a paráfrase do verso (Onde há marido...), escondendo-se a ironia:
As figuras masculinas somente se prestam a evidenciar a figura feminina de Constança com a denúncia da dominação exercida pelos homens, da falsa vassalagem e do amor cortês, ridicularizando a fala enganadora que acabava depois de seduzida a mulher. Ainda presente no Auto um rompimento de Gil Vicente com a figura do cavaleiro, do herói que parte vitorioso e forte para as conquistas e uma crítica às viagens para as Índias. Agora quem parte é o marinheiro, saído do povinho, da arraia-miúda, que chega até o rio de Meca para pelejar e roubar. O marinheiro safa-se a final, mas seu retorno à terra é inglório: as vantagens dos negócios são poucas e magras e "perde" a mulher que o trai com castelhanos e escudeiros. A construção do feminino em Gil Vicente esteve assim iniciada com Constança, através da qual o autor apresenta as expectativas da mulher diante do casamento e as falas do desejo para revelar a condição feminina. A mulher sugere no falar e no agir, surpreendentemente, uma licenciosidade, com situações e comportamentos que remetem aos contos de Decameron, de Giovanni Boccaccio. Podemos ler, sem dúvida, que nas criações vicentinas é posto em relevo o desfazimento entre a ética medieval ligada às convenções e à prática hedonista que sutilmente instala-se no discurso, e é operada, no caso do Auto da Índia, pelo universo feminino, que ousa ter várias vozes e começar um processo de libertação ao assumir uma atitude de gozo diante da vida.
GIL VICENTE Representante maior da literatura renascentista de Portugal antes de Camões, Gil Vicente realizou uma síntese original das tradições medievais do teatro. Retomou os milagres e mistérios com consciência moral renovadora própria do Renascimento, que em suas comédias se revela na expressão satírica, de humor saboroso e popular. Gil Vicente nasceu por volta de 1465 em lugar ignorado. Há poucos dados sobre sua vida. Um genealogista do século XVI confunde-o com um ourives de mesmo nome; outro, de veracidade mais provável, aponta-o como mestre de retórica de D. Manuel. A serviço da viúva do rei D. João II, D. Leonor, desde 1502, tornou-se o organizador dos espetáculos palacianos por ocasião dos nascimentos, casamentos, recepções e festas cristãs. A partir da aclamação de D. João III, em 1521, esteve sempre a seu serviço, valendo-se do prestígio na corte para satirizar, em suas obras teatrais, os vícios do clero e da nobreza. Como a maioria dos escritores portugueses da época, Gil Vicente escreveu com o mesmo brilho em português e castelhano. De feição primitiva, sua obra, embora ainda ligada à Idade Média, tem uma força dramática em que o traço maior de eficiência se verifica na caracterização dos personagens: em grande quantidade, estes saem do meio do povo, com o linguajar da época. Sobre seu comportamento, a ética do autor exerce a vigilância de um crítico da igreja impregnado do ideal, postulado por Erasmo, de restaurar o cristianismo original, purificar o clero e servir à moral católica. Sua irreverência mordaz tem por objeto sobretudo restabelecer a religião e o cumprimento mais estrito de suas normas. Além de dramaturgo, Gil Vicente é também um dos melhores poetas populares da península ibérica, pelo lirismo de seus cantares e serranilhas, de suas glosas, letrilhas e vilancicos. Redescoberta pelos românticos do século XIX, sua poesia traduz em muitos aspectos os primórdios renascentistas em Portugal, sem esconder no entanto as raízes medievais. Gil Vicente iniciou sua obra teatral com um texto em castelhano, Monólogo del vaquero (1502), em que um homem do povo fala sobre o nascimento do príncipe herdeiro. Outro trabalho que marcou o início de sua carreira é o Auto pastoril castelhano (1502), que escreveu para a celebração do Natal. Ao Auto dos Reis Magos (1503), igualmente natalino, seguiu-se o Auto da Sibila Cassandra, em que os deuses pagãos anunciam em Portugal os ideais renascentistas. Representam bem a sobrevivência medieval o Auto de São Martinho (1504), o Auto de los Cuatro Tiempos (c. 1508), o Auto da Alma (c. 1508) e o Auto da Fé (1510). O teatro de exaltação patriótica de Gil Vicente tem como melhores exemplos o Auto da Exortação da Guerra (1513) e o Auto da Fama (c. 1515). Na década de 1520 apareceram suas tragicomédias principais, Cortes de Júpiter (1521), em que apresenta mitologia festiva; Tragicomédia de D. Duardo, a que pertence a "Carta-prólogo", registro valioso das opiniões pessoais do dramaturgo; Templo de Apolo (1526); e Triunfo do Inverno, dedicada ao nascimento da infanta D. Isabel. Deturpações do catolicismo inspiraram o Auto da História de Deus (c. 1528) e o Auto da Feira (c. 1528). É tragicômico, embora tenda para a farsa, o Auto da Lusitânia (1531), severamente crítico para com os costumes da época. Parodiando um sermão de frade, o Auto de Mofina Mendes (1534) tornou-se um dos mais conhecidos. O melhor de Gil Vicente encontra-se em suas peças populares, em que desfilam, desde o Monólogo del Vaquero, todas as classes e categorias profissionais do Portugal de seu tempo. Assim, a Farsa do Escudeiro, uma das primeiras, o Auto da Índia (1509), a Farsa do Rico Velho da Horta (1512) e a Farsa dos Físicos (c. 1516) preparam o caminho para sua obra-prima, a trilogia de sátiras que compõem Barca do Inferno (1516), Barca do Purgatório (1518) e Barca da Glória (1519). Vêm depois a Farsa dos Ciganos (1521), o Auto Pastoril Português (1523), a Farsa de Inês Pereira (1523), Juiz da Beira (1525), Clérigo da Beira (1526), Almocreves (c. 1527), Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela (1527), Romagem dos Agravados (c. 1533) e Amadis de Gaula (1533). Gil Vicente morreu por volta de 1537 O AUTO DA ÍNDIA À Farsa seguinte chamam Auto da Índia. Foi fundada sobre que üa mulher, estando já embarcado pera a Índia seu marido, lhe vieram dizer que estava desaviado e que já não ia; e ela, de pesar, está chorando e fala-lhe üa sua criada. Foi feita em Almada, representada à muito católica Rainha Dona Lianor. Era de 1509 anos. Entram nela estas figuras: Ama, Moça, Castelhano, Lemos, Marido.
É porque se parte a armada? AMA Olhade a mal estreada! Eu hei-de chorar por isso? MOÇA Por minh' alma que cuidei e que sempre imaginei, que choráveis por noss' amo. AMA Por qual demo ou por qual gamo, ali, má hora, chorarei? Como me leixa saudosa! Toda eu fico amargurada! MOÇA Pois por que estais anojada? Dizei-mo, por vida vossa. AMA Leixa-m', ora, eramá, que dizem que não vai já. MOÇA Quem diz esse desconcerto? AMA Dixeram-mo por mui certo que é certo que fica cá. O Concelos me faz isto. MOÇA S'eles já estão em Restelo, como pode vir a pêlo? Melhor veja cu Jesu Cristo, isso é quem porcos há menos. AMA Certo é que bem pequenos são meus desejos que fique. MOÇA A armada está muito a pique. AMA Arreceio al de menos. Andei na má hora e nela a amassar e biscoutar, pera o o demo levar à sua negra canela, e agora dizem que não. Agasta-se-m'o coração, que quero sair de mim. MOÇA Eu irei saber s'é assim. AMA Hajas a minha benção.
Vai Moça e fica a Ama dizendo:
AMA A Santo António rogo eu que nunca mo cá depare: não sinto quem não s'enfare de um Diabo Zebedeu. Dormirei, dormirei, boas novas acharei. São João no ermo estava, e a passarinha cantava. Deus me cumpra o que sonhei. Cantando vem ela e leda. MOÇA Dai-m' alvíssaras, Senhora, já vai lá de foz em fora. AMA Dou-te üa touca de seda. MOÇA Ou, quando ele vier, dai-me do que vos trouxer. AMA Ali muitieramá! Agora há-de tornar cá? Que chegada e que prazer!
MOÇA Virtuosa está minha ama! Do triste dele hei dó. AMA: E que falas tu lá só? MOÇA: Falo cá co’esta cama. AMA: E essa cama, bem, que há? Mostra-m'essa roca cá: siquer fiarei um fio. Leixou-me aquele fastio sem ceitil.
MOÇA: Ali eramá! Todas ficassem assi. Leixou-lhe pera três anos trigo, azeite, mel e panos. AMA: Mau pesar veja eu de ti! Tu cuidas que não t'entendo? MOÇA: Que entendeis? ando dizendo que quem assi fica sem nada, coma vós, que é obrigada... Já me vós is entendendo.
AMA: Ha ah ah ah ah ah! Est'era bem graciosa, quem se vê moça e fermosa esperar pola irá má. I se vai ele a pescar meia légua polo mar, isto bem o sabes tu, quanto mais a Calecu: quem há tanto d'esperar? Melhor, Senhor, sé tu comigo. À hora de minha morte, qu'eu faça tão peca sorte. Guarde-me Deus de tal p'rigo. O certo é dar a prazer. Pera que é envelhecer esperando polo vento? Quant'eu por mui nécia sento a que o contrário fizer.
Partem em Maio daqui, quando o sangue novo atiça: parece-te que é justiça? Melhor vivas tu amém, e eu contigo também. Quem sobe por essa escada? CASTELHANO Paz sea n' esta posada. AMA Vós sois? Cuidei que era alguém. CASTFLHANO A según esso, soy yo nada.
AMA Bem, que vinda foi ora esta? CASTELHANO Vengo aquí en busca mía, que me perdí en aquel día que os vi hermosa y honesta y nunca más me topé. Invisible me torné, y de mí crudo enemigo; el cielo, empero es testigo que de mi parte no sé.
Y ando un cuerpo sin alma, un papel que lleva el viento, un pozo de pensamiento, una fortuna sin calma. Pese al dia en que nascí; vos y Dios sois contra mí, y nunca topo el diablo. Reís de lo que yo hablo? AMA Bem sei eu de que me ri.
CASTELHANO Reívos del mal que padezco, reívos de mi desconcierto, reívos que tenéis por cierto que miraros non merezco. AMA Andar embora. CASTELHANO Oh, mi vida y mi señora, luz de todo Portugal, tenéis gracia especial para linda matadora.
Supe que vuesso marido era ido. AMA Ant' ontem se foi. CASTELHANO Al diablo que lo doy el desestrado perdido. Qué más India que vos, qué más piedras preciosas, qué más alindadas cosas, qué estardes juntos los dos? No fue él Juan de Çamora. Que arrastrado muera yo, si por cuanto Dios crió os dexara media hora. Y aunque la mar se humillara y la tormenta cessara, y el viento me obedcciera y el cuarto cielo se abriera, un momento no os dexara.
Mas como evangelio es esto que la India hizo Dios, solo porque yo con vos pudiesse passar aquesto. Y solo por dicha mía, por gozar esta alegria, la hizo Dios descobrir: y no ha más que dezir, por la sagrada María!
AMA Moça, vai àquele cão, que anda naquelas tigelas. MOÇA Mas os gatos andam nelas. CASTELHANO Cuerpo del cielo con vos! Hablo en las tripas de Dios, y vos hablaisme en los gatos! AMA Se vós falais desbaratos, em que falaremos nós?
CASTELHANO No me hagáis derreñegar o hazer un desatino. Vós pensáis que soy devino? Soy hombre y siento el pesar. Trayo de dentro un léon, metido en el coraçón: tiéneme el alma dañada de ensangrentar esta espada en hombres, que es perdición.
Ya Dios es importunado de las ánimas que le embío; y no es en poder mío dexar uno acuchilado. Dexé bivo allá en el puerto un hombrazo anto y tuerto y después fuilo a encontrar; pcnsó que lo iva a matar, y de miedo cayó muerto.
AMA Vós queríeis ficar cá? Agora é cedo ainda; tornareis vós outra vinda, e tudo se bem fará. CASTELHANO A qué hora me mandáis? AMA Às nove horas e nô mais. E tirai üa pedrinha, pedra muito pequenina, à janela dos quintais.
Entonces vos abrirei de muito boa vontade: pois sois homem de verdade nunca vos falecerei. CASTELHANO Sabéis qué ganáis en esso? El mundo todo por vuesso! Que aunque tal capa me veis, tengo más que pensaréis: y no lo toméis em gruesso.
Bésoos las manos, Señora, voyme con vuessa licencia más ufano que Florencia. AMA Ide e vinde muit' embora. MOÇA Jesu! Como é rebolão! Dai, dai ao demo o ladrão. AMA Muito bem me parece ele. MOÇA Não vos fieis vós naquele, porque aquilo é refião.
AMA Já lh'eu tenho prometido. MOÇA Muito embora, seja assi. AMA Um Lemos andava aqui meu namorado perdido. MOÇA Quem? O rascão do sombreiro? AMA Mas antes era escudeiro. MOÇA Seria, mas bem safado; não suspirava o coitado senão por algum dinheiro.
AMA Não é ele homem dessa arte. MOÇA Pois inda ele não esquece? Há muito que não parece. AMA Quant' eu não sei dele parte. MOÇA Como ele souber à fé. Que nosso amo aqui não é, Lemos vos visitará.
L.EMOS Ou da casa! AMA Quem é lá? LEMOS Subirei? Suba quem é. LEMOS Vosso cativo, Senhora. Jesu! Tamanha mesura! AMA Sou rainha porventura? Mas sois minha emperadora. LEMOS Que foi do vosso passear, com luar e sem luar, AMA toda a noite nesta rua? LEMOS Achei-vos sempre tão crua, que vos não pude aturar.
Mas agora como estais? Foi-se à Índia meu marido, e depois homem nascido não veio onde vós cuidais; e por vida de Constança, que se não fosse a lembrança... MOÇA Dizei já essa mentira. Que eu vos não consentira entrar em tanta privança.
LEMOS Pois agora estais singela, que lei me dais vós, Senhora? AMA Digo que venhais embora. LEMOS Quem tira àquela janela? AMA Meninos que andam brincando, e tiram de quando em quando. LEMOS Que dizeis, Senhora minha? AMA Metei-vos nessa cozinha, que me estão ali chamando.
CASTELHANO Ábrame, vuessa merced, que estoy aquí a la verguença! Esto úsasse en Siguença: pues prometéis, mantened. AMA Calai-vos, muitieramá até que meu irmão se vá! Dissimulai por i, entanto. Ora vistes o quebranto? Andar, muitieramá!
LEMOS Quem é aquele que falava? AMA O Castelhano vinagreiro. LEMOS Que quer? AMA Vem polo dinheiro do vinagre que me dava. Vós queríeis cá cear e eu não tenho que vos dar. LEMOS Vá esta moça à Ribeira e traga-a cá toda inteira, que toda s' há-de gastar
MOÇA Azevias trazerei? LEMOS Dá ao demo as azevias: não compres, já m' enfastias. MOÇA O que quiserdes comprarei. LEMOS Traze uma quarta de cerejas e um ceitil de bribigões. MOÇA Cabrito? LEMOS Tem mil varejas.
MOÇA E ostras trazerei delas? LEMOS Se valerem caras, não: antes traze mais um pão e o vinho das Estrelas. MOÇA Quanto trazerei de vinho? LEMOS Três pichéis deste caminho. MOÇA Dais-me um cinquinho, nô mais? LEMOS Toma aí mais dous reais.
Vai e vem muito improviso «Quem vos anojou, meu bem, «bem anojado me tem.» AMA Vós cantais em vosso siso? LEMOS Deixai-me cantar, senhora. AMA A vizinhança que dirá, se meu marido aqui não' stá, e vos ouvirem cantar? Que rezão lhe posso eu dar, que não seja muito má?
Reniego de Marenilla: esto es burla, o es burleta? Queríeis que me haga trompeta, qué me oiga toda la villa? AMA Entrai vós, ali, senhor, que ouço o corregedor; temo tanto esta devassa! Entrai vós ness' outra casa que sinto grande rumor.
Chega à janela.
Falai vós passo, micer. CASTELHANO Pesar ora de San Palo, esto es burla o es diablo? AMA E eu posso vos mais fazer? CASTELHANO Y aún en esso está ahora la vida de Juan de Çamora? Son noches de Navidá, quiere amanecer ya, que no tardará media hora.
AMA Meu irmão cuidei que se ia. CASTELHANO Ah, señora, y reísvos vós! Ábrame, cuerpo de Dios! AMA Tornareis cá outro dia. CASTELHANO Assossiega, coraçón, adormiéntate, león, no eches la casa en tierra ni hagas tan cruda guerra, que mueras como Sansón. Esta burla es de verdad, por los ossos de Medea, si no que arrastrado sea mañana por la ciudad; por la sangre soverana se la batalla troyana, y juro a la casa sancta... AMA Pera qu' é essa jura tanta? CASTELHANO Y aún vos estáis ufana?
Quiero destruir el mundo, quemar la casa, es la verdad, despucs quemar la ciudad; señora, en esto me fundo. Después, si Dios me dixere, cuando allá con él me viere que sola por una mujer... Bien sabré que responder, cuando a esso veniere.
AMA Isso são rebolarias! CASTELHANO Séame Dios testigo, que vos veréis lo que digo, antes que passen tres días. AMA Má viagem faças tu caminho de Calecu, praza à Virgem consagrada. LEMOS Que é isso? Não é nada. LEMOS Assi viva Belzebu.
AMA I-vos embora, senhor que isto quer amanhecer. Tudo está a vosso prazer, com muito dobrado amor. Oh, que mesuras tamanhas! MOÇA Quantas artes, quantas manhas, que sabe fazer minha ama! Um na rua, outro na cama! AMA Que falas? Que t' arreganhas?
MOÇA Ando dizendo entre mi que agora vai em dous anos que eu fui lavar os panos além do chão d' Alcami; e logo partiu a armada, domingo de madrugada. Não pode muito tardar nova, se há-de tornar noss' amo pera a pousada.
AMA Asinha. MOÇA Três anos há que partiu Tristão da Cunha. AMA Cant' eu ano e meio punha. MOÇA Mas três e mais haverá. AMA Vai tu comprar de comer. Tens muito pera fazer, não tardes. MOÇA Não, senhora; eu virei logo nessora, se m' eu lá não detiver.
AMA Mas que graça, que seria, se este negro meu marido, tornasse a Lisboa vivo pera a minha companhia! Mas isto não pode ser, que ele havia de morrer somente de ver o mar. Quero fiar e cantar, segura de o nunca ver.
MOÇA Ai, senhora! Venho morta! Noss' amo é hoje aqui. AMA Má nova venha por ti perra, excomungada, torta. MOÇA A Garça, em que ele ia, vem com mui grande alegria; per Restelo entra agora. Por vida minha, senhora, que não falo zombaria.
E vi pessoa que o viu gordo, que é pera espantar. AMA Pois, casa, se t' eu caiar, mate-me quem me partiu! Quebra-me aquelas tigelas e três ou quatro panelas, que não ache em que comer. Que chegada e que prazer! Fecha-me aquelas janelas,
deita essa carne a esses gatos; desfaze toda essa cama. MOÇA De mercês está minha ama; desfeitos estão os tratos. AMA Porque não matas o fogo? MOÇA Raivar, qu' este é outro jogo. AMA Perra, cadela, tinhosa, que rosmeias, aleivosa? MOÇA Digo que o matarei logo.
AMA Não sei pera que é viver. MARIDO: Oulá. AMA: Ali má hora este é. Quem é? MARIDO: Homem de pé. AMA: Gracioso se quer fazer. Subi, subi pera cima. MOÇA: É noss'amo, como rima! AMA: Teu amo? Jesu, Jesu, Alvíssaras pedirás tu. MARIDO: Abraçai-me minha prima.
AMA: Jesu, quão negro e tostado! Não vos quero, não vos quero. MARIDO: E eu a vós a si, porque espero serdes mulher de recado. AMA: Moça, tu que estás olhando, vai muito asinha saltando, faze fogo, vai por vinho e a metade dum cabritinho, enquanto estamos falando.
Ora como vos foi lá? MARIDO: Muita fortuna passei. AMA: E eu, oh quanto chorei, quando a armada foi de cá. E quando vi desferir que começastes de partir, Jesu, eu fiquei finada, três dias não comi nada, a alma se me queria sair.
MARIDO: E nós cem léguas daqui saltou tanto sudueste, sudueste e oés-sudueste que nunca tal tromenta vi. AMA: Foi isso à quarta-feira, aquela logo primeira? MARIDO: Si, e começou n'alvorada. AMA: E eu fui-me de madrugada a nossa Senhora d'Oliveira.
E com a memória da cruz fiz-lhe dizer üa missa, e prometi-vos em camisa a Santa Maria da Luz. E logo à quinta-feira fui ao Spírito Santo com outra missa também. Chorei tanto que ninguém nunca cuidou ver tal pranto.
Correstes aquela tromenta? Andar... MARIDO: Durou três dias. AMA: As minhas três romarias com outras mais de quarenta. MARIDO: Fomos na volta do mar quasi a quartelar: a nossa Garça voava que o mar se espedaçava.
Fomos ao rio de Meca, pelejámos e roubámos e mui risco passámos: a vela, árvore seca. AMA: E eu cá esmorecer, fazendo mil devações, mil choros, mil orações. MARIDO: Assi havia de ser.
AMA: Juro-vos que de saudade tanto de pão não comia a triste de mi cada dia doente, era üa piedade. Já carne nunca a comi, esta camisa que trago em vossa dita a vesti porque vinha bom mandado.
Onde não há marido cuidai que tudo é tristura, não há prazer nem folgura, sabei que é viver perdido. Alembrava-vos eu lá? MARIDO: E como! AMA: Agora, aramá: lá há índias mui fermosas, lá faríeis vós das vossas e a triste de mi cá,
encerrada nesta casa, sem consentir que vezinha entrasse por üa brasa, por honestidade minha. MARIDO: Lá vos digo que há fadigas, tantas mortes, tantas brigas e perigos descompassados, que assi vimos destroçados pelados coma formigas.
AMA: Porém vindes vós mui rico... MARIDO: Se não fora o capitão, eu trouxera, a meu quinhão, um milhão vos certifico. Calai-vos que vós vereis quão louçã haveis de sair. AMA: Agora me quero eu rir disso que me vós dizeis. Pois que vós vivo viestes, que quero eu de mais riqueza? Louvado seja a grandeza de vós, Senhor que mo trouxestes. A nau vem bem carregada? MARIDO: Vem tão doce embandeirada. AMA: Vamo-la, rogo-vo-lo, ver. MARIDO: Far-vos-ei nisso prazer? AMA: Si que estou muito enfadada. Vão-se a ver a nau e fenece esta farsa. |